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Sobre trovas e tempestades: atravessar uma canção que me atravessa — 24/11/2016

Sobre trovas e tempestades: atravessar uma canção que me atravessa

[Pequeno ensaio sobre “Trovoa”, a partir da gravação feita pelo Metá Metá. Para quem não conhece, deixo o link para o Youtube, antes do texto, e a letra completa, depois:]

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Trovoa – Metá Metá (2011)

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Sobre trovas e tempestades: atravessar uma canção que me atravessa

Tudo o que sobra

é a trilha sonora.

Ricardo Domeneck, Cigarros na cama

  1. Em mim, o efeito terrível de uma canção, de um poema, se dá a ver sempre como uma forma complexa de alegria: potência do corpo, algo de vital que se acende, o transtorno do pensamento que se dobra aos afetos. Ideias e sensações se misturam e embaralham, o ritmo (qualquer ritmo: do texto, da música, da minha própria frequência cardíaca quase sempre apressada) se imprime como cadência e movimento, sendo compreendido antes pelos sentidos, que estabelecem com ele uma espécie de compasso, de idiorritmia que permite, só então, acessar os significados possíveis que a inteligência é capaz de construir a partir da obra. Idiorritmia, repito agora e penso, em tentativa pessoal de definição: é (quem sabe?) descobrir-se de repente andando no mesmo passo com alguém recém-conhecido, linhas paralelas, em respiração próxima e comunicável; é inventar formas de viver junto, de coabitar um espaço ou uma experiência, ver-se atravessado por uma presença (um corpo, uma imagem, um texto?) que, sutil, se impõe. No caso preciso e precioso de uma canção/poema, a idiorritmia traduz-se (também) num processo de afinação, no qual palavras e sons fundem-se aos movimentos da vida e passam a participar do seu tempo e tom. Anda-se, nesse sentido, dentro da música e da literatura (com os fones colados ao ouvido) como elas são capazes, portáteis, de por dentro passear a todos nós, qualquer um, acompanhando e invadindo quem quer que se disponha a ler, ouvir, deixar-se trespassar.
  2. O texto em tela, que aqui interessa de perto ouvir e fazer falar, é a canção “Trovoa”, de Maurício Pereira, em gravação do trio Metá Metá feita e levada a público, no álbum do grupo, em 2011. É uma peça de múltiplas camadas, muitas coisas numa só, mas talvez fundamentalmente duas, de início: trata-se da afirmação tempestuosa de um amor, feita a modo de uma conversação; e também de um périplo pela cidade de São Paulo, cenário e personagem do roteiro lírico que a canção arma. Inseparáveis, essas duas faces de “Trovoa” misturam-se, em verdadeiro amálgama, ao arranjo sonoro que inventa e recobre o texto que se vai desenhando. A um só tempo arcaica e atualíssima – logo também estranha e fascinante – a forma-canção ensaiada pelo autor e reproposta pelo trio que a vai performar equilibra o som tranquilo do violão e da flauta ao canto recitativo no qual a melodia ora se insinua, firme, em meio às palavras, ora se perde na cadência rápida do declamatório, numa modalidade, quem sabe?, de spoken word, na qual a modulação da voz e do canto reivindica a presença da poesia ao mesmo tempo em que confere um aspecto dramático ao texto e à massa sonora daí decorrente; que encena, na sua linguagem entre coloquial e erudita, um discurso amoroso tenso e torrencial, carregado de eletricidade e desejo. O recitativo do canto traz a “Trovoa”, como ficou dito, uma sonoridade antiga, francamente pré-moderna, na qual a voz não se harmoniza inteiramente ao arranjo, restando independente em tantos momentos, apenas acompanhada, ao fundo, pelos ritmos e acordes mínimos dos instrumentos. A melodia encantatória das palavras, por sua vez, impõe-se à cadência particular da música, atravessando-a para garantir e renovar, nos ouvidos acostumados à forma fácil da música-padrão, o efeito do descompasso e do estranhamento: a profusão de rimas internas e repetições, encontros vocálicos e espelhamentos métrico e sintáticos, bem como a sequência de versos inundados por proparoxítonas, palavras de corpo alongado e grave – tudo isso, todos esses elementos concorrendo para formar, no bojo da canção/poema, uma massa sonora sofisticada, próxima do paradoxal: num certo sentido muito simples, despojada e quase empobrecida, e às vezes excessivamente cerebral, cuidadosamente elaborada.
  3. O encontro com a canção/poema deu-se, claro está, em meio à reflexão pessoal sobre o rito da paixão, seus devaneios e desgraças. O relato da entrega, dos riscos e das andanças desnorteadas que o texto apresenta encontrou eco no que eu vinha lento elaborando – ou assim eu julguei, às vezes em perturbadora sintonia (diria mesmo quase mimetismo), às vezes como força propulsora, elemento poietico que cria (e não só re-apresenta) o sentimento exposto. Para dizer de modo direto: eu atravessava os dias de revelação e caos da exposição sem limites à incerteza, ao desconhecido que parece familiar e por isso mesmeriza e atrai, enquanto era, de modo simultâneo e indissociável, atravessado pela canção, reconhecendo e imaginando – com ela, a partir dela – o turbilhão de afetos que se precipitava feito tempestade. As trovas (o gesto trovadoresco mobilizado pelo texto, que quer ser declaração amorosa e pedido, às vezes em franca atitude de reverência) se mesclavam aos meus pensamentos e algo como um encantamento profundo quedava sempre, como resultado inúmeras vezes renovado, da experiência da audição. A metáfora do título, disseminada e repetida ao longo do poema, o estrondo do trovão que repercute no sujeito e o desestabiliza: “minha cabeça trovoa”, era, em si mesma, significante: anunciava o som insuportável, impossível de ser ignorado, da presença densa do outro e dos abalos que ela é capaz de provocar. Como fenômeno natural, o trovejar é pura espontaneidade e violência, acontecimento (no sentido pleno da palavra) que escapa ao controle e ao cálculo, força que se manifesta independente da vontade como oferta e acaso, símile sensível, imagem-síntese do rito (com suas fórmulas algo religiosas, seu poder de deslocamento subjetivo e medo) e das ficções do enamoramento que se delineiam num instante, e que em mim quiseram se fazer ver com energia, mesmo que encobrissem, talvez, engano e vazio.
  4. Armada como um diálogo ora silencioso e íntimo, ora aberto e tumultuoso, “Trovoa” alterna vozes, velocidades e tonalidades, oscilando permanentemente, de modo tantas vezes indecidível, não apenas entre os elementos masculino e feminino que nela parecem se encontrar e enfrentar; a canção oscila também entre posturas e afetos extremos: a reverência e a insubmissão, a doçura e o desespero, a plenitude e o caos. O dado decisivo desse movimento contínuo dos sentidos no texto pode ser notado, inclusive, na modulação hábil da voz: às vezes tranquila e reconfortante, fazendo eco às lembranças amenas de um amor, ela passa tantas vezes rapidamente ao atropelo da dicção e ao (quase) grito, dando a ver no plano imediato das sensações aquilo que o poema, imageticamente, conceitualmente, procura propor. Ao nível mesmo do vocabulário, o jogo de alternâncias pode ser visto em detalhes, revelando muito do trabalho de filigrana que organiza a canção: a delicadeza e a força se alternam e entrelaçam na mistura que o texto traz: de um lado, a referência erudita, o uso sofisticado da língua (o próprio termo-título, “trovoa”, vai aparecer num registro raro, num deslocamento sintático-semântico pouco usual; a frequência e a felicidade com que se sucedem as muitas proparoxítonas que povoam o poema, em fino ajustamento de som e sentido; a referência, por fim, indireta e ainda assim marcante ao universo da poesia medieval, com seu imaginário cortês e vassalo, suas indecisão entre o canto e a escrita). De outro, no entanto, a presença da cidade inabordável e gigantesca de São Paulo, sua linguagem própria, o coloquialismo de tantas expressões típicas, o imaginário popular das multidões anônimas, o pano de fundo das ‘padocas’, por exemplo – descontraído e algo reconfortante, enfim – associado também a bairros, ruas e certas paisagens da metrópole. Conjugados, esses dois registros vão formar uma sequência de lógica bastante particular, segundo a qual um verso nasce do outro, uma imagem de sentido diverso puxa a outra (de significado oposto) e o todo do poema vai se construindo assim, em equilíbrio tenso e precário, mas ainda assim preciso. A enumeração caótica (e coerente) de um verso como o que está incrustado no meio da primeira estrofe:

(…) Destino canções pros teus olhos vermelhos/ flores vermelhas, Vênus, bônus/Tudo o que me for possível, ou menos/mais ou menos/me entrego, ofereço, reverencio a tua beleza (…)

traz a doçura simples dos elementos cotidianos (as flores, principalmente) e também a recordação sutil do mito, seus sentidos inesperados nesse contexto, a abstração, enfim, que remete, logo de saída, ao amor quieto e tenso, materializado na adoração expectante do Belo: “me entrego, ofereço, reverencio a tua beleza/ física também, mas não só/não só”. Junto a ele, como contraponto e complemento, se vai encontrar outro amontoado de substantivos, outra sequência enumerada de objetos corriqueiros que, dessa feita, não terminará na diferença contrastante do sublime (na elevação idealizada do Mito), mas irá começar, numa inversão sintomática de perspectiva, com o som rascante de uma rajada de tiros, sonoridade e imagem mimetizadas pelo verso em destaque, cujas palavras, escolhidas com cuidado, parecem estilhaçar-se em sílabas entrecortadas, de leitura interrompida:

Pressinto como você chega, ligeiro/vasculhando a minha tralha/bagunçando a minha cabeça/Metralhando na quinquilharia que carrego comigo/clipes, grampos, cremes, tônicos/toda a dureza incrível do meu coração/feita em pedaços

A alternância entre ambos os trechos, a disposição em que se encontram no corpo do poema, dá bem a medida do que entendo ser o princípio fundamental de “Trovoa”. A passagem (sempre reversível, não obediente a uma sintaxe rígida) entre trova e tempestade, isto é, entre elementos díspares que se equilibram a partir da contradição, numa curiosa espécie de dialética, na qual os sujeitos do discurso, os motores da cena armada pela canção, existem e se realizam amorosamente no ponto exato em que os contrários (palavras, afetos, melodias, desejos) se tocam e potencializam mutuamente, conforme se pode ver nos dois exemplos a seguir: “Vou sossegado e assobio/e é porque confio em teu carinho/mesmo que ele venha num tapa (…)” e “Deslocamento atômico/para um instante único/em que o poema mais lírico/se mostre a coisa mais lógica.”

5. Apresentada com a roupagem da servidão e da vassalagem, mas afirmando-se pelo dom, isto é, por uma atitude que não espera nem requer qualquer troca ou contraparte, existindo como pura entrega presentificada[1], a escavação do outro que caracterizará o encontro erótico no poema se confunde com a escrita e a invenção. O canto é aqui, também, dom: o ato da criação se confunde com a oferta amorosa, ambos tocados pela necessidade de uma entrega an-econômica ao mundo e ao outro. Projetar o afeto (lança-lo além) e compor a canção-poema são ações paralelas, num certo sentido, porque movem-se a partir do mesmo gesto de dispêndio, de igual demanda generosa. Amar é de fato – quando não se trata apenas de puro impulso narcísico, como tantas vezes ocorre – sair de si, externar-se quase por completo, abrir-se à desmesura de um encontro com aquilo (ou aquele) que não se conhece nem pode controlar; criar, por sua vez (compor, escrever, montar, esculpir), é também um salto no escuro, uma aposta total no jogo e no risco – desde que não seja apenas reprodução de temas dados ou a proposição vazia, acrítica, das formas fáceis do Mercado. Daí a estrutura discretamente metalinguística da canção, que de maneira deliberada, mas sutil, aproxima no texto as duas esferas, movendo a atenção do ouvinte-receptor na direção do incerto e do espanto: as canções que o eu-lírico destina a sua interlocutora vão brotando, ou assim a composição me faz crer, no ato mesmo da criação, no instante em que a performance parece inventar, e não reproduzir, um texto e uma melodia pré-formatados. E assim é também com a narrativa de um amor antigo, já conhecido, mas que se renova no percurso proposto pelo poema, já que os momentos de início e descoberta, a visitação das origens do afeto e do encontro, por assim dizer, também aparecem no texto, que procura encenar dramaticamente vários passos da vida do casal: a celebração do instante pleno que se compartilha (estrofes 1 e 2), a procura do amante ausente (estrofe 6), a lembrança de passagens intensas e afáveis (estrofe 3), a confusão de uma briga, o desespero do desencontro (estrofes 7 e 8), as promessas finais – a modo quase de afirmação de um recomeço – dos laços que os mantém atados (estrofe 10). Por mais que o desfecho seja esperado, que o teatro de emoções posto para funcionar pela canção-poema traga à tona um roteiro em alguma medida reconhecível, a tensão criada pelo texto e atualizada pela interpretação estudada do Meta Metá quer dar a impressão de um conflito imprevisível, de uma história cíclica (e em permanente estado de suspensão) cujo desfecho não se sabe de antemão.

6. Quantas vezes é preciso ouvir uma canção para entende-la? Ler um poema até memoriza-lo, recitando-o em horas próprias e impróprias, será necessário para o atravessar convenientemente? Li tantas vezes quanto pude o “Cântico dos cânticos para flauta e violão”, de Oswald de Andrade; não frequentei ainda, o quanto quis, as páginas do Ciclo do amante substituível, do Ricardo Domeneck. Mas em ambos encontrei – e vi agir em mim, duplicada pela leitura – a força ambígua da obsessão, a concentração absoluta no objeto do amor, espécie de impulso que não apenas impele ao outro, mas que o quer capturar, cercar de cuidados, restringir e conter completamente. Tanto na celebração afirmativa e guerreira de Oswald – que localiza na amante revelada (Maria Antonieta d’Alkmin, nome melodicamente repetido tantas vezes no poema) a necessidade ética e afetiva da resistência aos tempos sombrios, estejam eles abrigados no peito do poeta ou na catástrofe que se adensava ao redor, em meio à Segunda Grande Guerra –, quanto na extensa meditação desencantada – e irônica – de Domeneck sobre o fim dos relacionamentos (e que tem na figura onipresente d’ O Moço a sua mola propulsora e o seu centro inamovível, astro em torno do qual tudo o que há de sublime, fútil e violento no amor se concentra), a paixão está representada como em “Trovoa”, repleta da força centrípeta que tem a obsessão, sua capacidade atrativa e circular, que captura e se impõe. A experiência amorosa e a fruição estética apresentaram para mim, nesse contexto, característica similar, uma vez que a insistência da audição da música traduzia a maneira como eu compreendia a lógica do encontro, e os textos que sempre me vinham à memória ao ouvir a canção eram, eles também, marcados pelos mesmos elementos de repetição e insistência, pela mesma imagem de totalidade que se espalha e materializa liricamente, seja na brados de vitória do Cântico, seja nas confissões ridículas e belíssimas presentes no Ciclo. A beleza da canção e dos textos, seu fascínio específico vinha da mistura desses dados estranhos, uma muito hábil expressão formal do afeto, feita de cenas e sonoridades felizes, junto a uma expressão pesada, de fato dolorosa, de uma experiência que ultrapassa e recobre por inteiro o sujeito da escrita (e do canto), deixando-o sem saída. As duas estrofes finais da canção de Maurício Pereira apontam nessa direção, construindo uma síntese daquilo que o poema tem de mais interessante, algo que repercutiu em mim e me fez pensar, em chave ao mesmo tempo pessoal e crítica, sobre a mobilização quase doentia a que o afeto pode conduzir, a energia destrutiva que nele se abriga, mas que ainda assim pode ser, em alguns casos e para algumas pessoas, potência vital e convite à criação de novas formas e novos mundos.

*

[1] Aqui, quem sabe, a recuperação do rastro medieval que ocorre em “Trovoa” encontre o seu limite: longe de ser oferta sem esperança de retorno, direta oferta de afeto e dedicação ao outro, à mulher amada, as práticas amorosas da vassalagem e da servidão nunca deixaram de ser parte de uma elaborada convenção social, com papéis muito bem definidos e expectativas claras quanto ao sucesso erótico e econômico do encontro, uma vez que o casamento e as relações consanguíneas eram forma segura de ascensão e sobrevivência.

Minha cabeça trovoa
Sob o meu peito eu te trovo e me ajoelho
Destino canções pros teus olhos vermelhos
Flores vermelhas, vênus, bônus
Tudo que me for possível, ou menos
Mais ou menos
Me entrego, ofereço, reverencio a tua beleza
Física também, mas não só,
Não só

Graças a deus você existe
Acho que eu teria um troço
Se você dissesse que não tem negócio
Te ergo com as mãos, sorrio mal, mal sorrio
Meus olhos fechados te acossam
Fora de órbita
Descabelada, diva, súbita
Súbita

Seja meiga, seja objetiva
Seja faca na manteiga
Pressinto como você chega, ligeiro
Vasculhando a minha tralha
Bagunçando a minha cabeça
Metralhando na quinquilharia que carrego comigo
Clipes, grampos, cremes, tônicos
Toda dureza incrível do meu coração
Feita em pedaços

Minha cabeça trovoa
Sob teu peito eu encontro a calmaria e o silêncio
No portão da tua casa no bairro
Famílias assistem tv – eu não
Às 8, 9 da noite
Eu fumo um marlboro na rua como todo mundo
E como você, eu sei
Quer dizer, eu acho que sei
Eu acho que sei

Vou sossegado e assobio
E é porque eu confio em teu carinho
Mesmo que ele venha num tapa
E caminho a pé pelas ruas da lapa
– logo cedo, vapor? não acredito!
A fuligem me ofusca
A friagem me cutuca
Nascer do sol visto da vila ipojuca
O aço fino da navalha que faz a barba
O aço frio do metrô
O halo fino da tua presença

Sozinha na padoca em santa cecília
No meio da tarde, soluça
Quer dizer, relembro
Batucando com as unhas coloridas
Na borda de um copo de cerveja
Resmunga quando vê
Que ganha chicletes de troco

Lembrando que um dia falou
sabe?, você tá tão chique, meio freak, anos 70
Fique
Fica comigo
Se você for embora eu vou virar mendigo
Eu não sirvo pra nada
Não vou ser seu amigo
Fique
Fica comigo?

Minha cabeça trovoa
Sob o teu manto eu me entrego
Ao desafio de te dar um beijo, entender o teu desejo
Me atirar pros teus peitos
Meu amor é imenso, é maior do que penso
É denso
Espessa nuvem de incenso de perfume intenso
E o simples ato de cheirar-te
Me cheira a arte
Me leva a marte
A qualquer parte
A parte que ativa a química
Química

Ignora a mímica e a educação física
Só se abastece de mágica
Explode uma garrafa térmica
Por sobre as mesas de fórmica de um salão de cerâmica
Onde soem os cânticos
Convicção monogâmica
Deslocamento atômico
Para um instante único
Em que o poema mais lírico
Se mostre a coisa mais lógica

E se abraçar com força descomunal
Até que os braços queiram arrebentar
Toda a defesa que hoje possa existir
E por acaso queira nos afastar
Esse momento tão pequeno e gentil
E a beleza que ele pode abrigar
Querida, nunca mais se deixe esquecer
Aonde nasce e mora todo o amor

metameta
Leila Danziger: poesia e afeto — 22/11/2016

Leila Danziger: poesia e afeto

(sobre Três ensaios de fala – texto originalmente publicado aqui: http://www.lunaparque.com.br/resenhas )

  1. A incomensurável tristeza do que existe: talvez esse seja o verso com que se deva começar a ler a poesia da artista carioca Leila Danziger. Nele se concentram alguns dos procedimentos formais mais caros à autora, nele se pode surpreender o passo em que ética e estética se tocam e se confundem no seu trabalho. Em primeiro lugar, o plano da linguagem e do sensível: as palavras que aqui se lêem são parte do poema “Minima Moralia” e acenam – como o uso do itálico e o próprio título do poema vão sugerir – para fora, para um outro texto e para uma outra voz. Foram escritas pelo filósofo Theodor W. Adorno, e no texto de Danziger vão deslocadas, expropriadas, habitando um corpo – e um universo de sentidos – que é e não é propriamente seu. Não há metáforas aqui: quase despida de imagens, a linguagem evoca e descreve. A beleza discreta da sentença, sua força e permanência vêm da harmonia sutil que a atravessa: a construção do pensamento se dá também na observância das tonalidades, das estruturas sonoras e da reiteração de um mesmo arranjo consonantal. O lamento que dele emana nasce, antes de tudo, da sua força poética. E é a partir dessa perspectiva de encantamento e cuidado que vai crescer e se impor o sentido fundamental do verso, tal como ele se apresenta, capturado, pela autora: mais do que descrever ou enunciar um afeto que se espalha, o que se coloca tem a ver com a atenção (isto é, com espera e abertura): a poeta, assim como o filósofo, parecem dizer da profunda atenção que dedicam ao mundo, do olhar interessado que lançam sobre seres e coisas, percebendo neles, principalmente nas frestas, cenas e vidas menores (vida danificada, dirá Adorno), a tristeza que as constitui. Em poemas como “Uma mulher transparente” e “Fato bruto”, textos iniciais da coletânea que também acolhe o poema antes referido, Danziger observa ao redor, colhendo na rua ou nas páginas secundárias do jornal a massa viva e dolorosa com que forma seus versos: no abandono de uma mulher enlouquecida na cidade, seu corpo envolto em trapos e sujeira [“ela é feita pela subtração de matéria” (DANZIGER, 2012, p. 9)], digna ainda assim na sua posição frágil; na fotografia e na notícia banalizada da morte de uma baleia em plena praia, seu ser imenso encalhado, apodrecendo ao ar livre [“A baleia pedia crônicas de espanto/mas nem as ondas revoltam-se –/não há assombro por sua carne inerte” (DANZIGER, 2012, p. 11)]. todos-os-dias Em ambos os casos, o gesto da escrita se faz a partir da comoção: da identificação impossível com aquela mulher apagada, que num certo sentido é uma projeção da artista, da recolha de si e acolhimento do outro (sua voz, sua presença) que caracteriza tantos de seus poemas e instalações; do gesto lutuoso, ativo, do desejo de “fazer um túmulo digno” para o animal, um mamífero de linguagem e afetos complexos, “que conhece as águas e as cinzas” (DANZIGER, 2012, p. 11), substâncias sagradas para a vida e para a memória. A palavra-pensante, que apresenta, narra ou reflete, é o centro do universo criativo e sentimental da autora que, de pé sobre a língua, sabe “escavar e manobrar/os versos” (DANZIGER, 2012, p. 15) sem deixar de imprimir neles as marcas de uma muito pessoal ética da representação: “a linguagem informativa/acumulada em pilhas/que era preciso desfazer/esvaziar/apagar/erodir a matéria-jornal/turvá-la de poesia” (DANZIGER, 2012, p. 16). Todos esses elementos, tudo o que se destacou (ou derivou) de Minima Moralia (livro e poema, de dupla autoria) – a escrita que se faz como recorte e apropriação, a construção delicada e cuidadosa da frase (o ouvido atento à sua música mínima), a composição pura empatia e afeto – são traços marcantes da poesia da autora, procedimentos comuns nos textos que formam Três ensaios de fala (7Letras, 2012), seu primeiro e ainda pouco conhecido livro de poemas.
  1. Eu sou o Arquivo: assim se apresenta pelo menos uma vez a autora, criação e criadora da ficção suprema que atravessa os seus poemas. E onde se lê arquivo, seria possível ler também Passado ou Memória, ainda que os termos e conceitos não sejam coincidentes. Há na poesia de Leila Danziger um profundo interesse pelo tempo, sua força paradoxal, igualmente derrisória e construtiva. Diante do tempo é que a poeta vai afirmar a si como Arquivo, como depositária dos fragmentos e dos restos da existência comum, guardiã dos documentos que dão conta de um mundo em extinção. Atravessada por nomes próprios, datas, toponímias e topografias precisas, a poesia da artista incorpora a si – obedecendo a uma pulsão arquivística e a uma curiosidade próxima à do antiquário – tênues evidências materiais, vestígios mesmo do tempo, de sua passagem, de vários e múltiplos tempos que se entrelaçam e cruzam formando uma rede intrincada de referências privadas e sociais, íntimas e públicas. Em “Berlin, Zoo”, por exemplo, o desejo pelo rastro faz com que o poema ocupe o lugar da peça de memória que falta: “Pisam juntos o mesmo cascalho//E como não há foto alguma desse encontro/reúno-os/aqui/meu filho, aos quatro anos, e seu pai” (DANZIGER, 2012, p. 28). A larga presença nos textos de jornais, fotografias, vídeos e materiais impressos não será gratuita: eles assinalam, pela periodicidade e pelas inscrições que contém, a concretude dos dias e anos que se sucedem, acumulados pela casa em pilhas, desgastando-se diante dos olhos da artista. tres-ensaios São tema, objeto, anteparo e moldura para os poemas, bem como para inúmeras intervenções artísticas, das quais a série Vanitas talvez seja a mais conhecida: os periódicos rasurados, a escrita em palimpsesto desenterrando palavras e imagens, produzindo novas perspectivas para aquilo que antes era apenas linguagem esvaziada. Num caso como no outro, isto é, nos poemas e nas artes plásticas – formas que estabelecem entre si zonas de solidariedade e contágio – o processo mesmo de envelhecimento e transformação da matéria, o acúmulo dos objetos e dos acontecimentos participa da lógica da criação: “Retiro o elástico que une os cartões/entregues assim/à mesa/em dispersão//e leio – /o delicado trabalho do mofo/que avança decidido pelas laterais” (DANZIGER, 2012, p. 34; grifo meu). A papelada inútil, mas reveladora, que a vida e a burocracia reúnem é também convite à invenção: “Eu percorro as trilhas/por entre bricabraques imprescindíveis/– todos os recibos de nossas vidas/tantas agendas em branco” (DANZIGER, 2012, p. 32). Se as instalações e quadros vão deslocando, escavando os indícios do dia até torna-los superfícies quase brancas, nas quais se pode novamente escrever, os poemas vão tratar de informar esse trabalho, pensa-lo longamente, contrasta-lo com outros modos de, ao mesmo tempo, reter e esquecer o mundo, guardando de mistura o supérfluo e o essencial, sem saber de fato onde começa um e termina o outro: “Eu sou a membrana que os une/– nomes, crianças, vozes, areia./Filmo de modo tão compulsivo/quanto as crianças escavam./Estamos juntos no desejo de transferir matéria/: areia sobre areia/: imagem sobre imagem” (DANZIGER, 2012, p. 63). Ainda que muitas vezes amparada no presente, o vetor da imaginação artística de Leila Danziger aponta sempre para trás: as lembranças familiares e pessoais, os rastros materiais e simbólicos da presença viva daqueles que se foram, a historicidade de gestos e paisagens, a ação mesma do tempo, enfim, sobre os seres e as coisas: tudo converge para o passado, para estratégias que se apresentam para enfrenta-lo. Ora a memória, selecionado, deformando, dando significados distintos à vida, forjando a identidade e os liames que a mantém atada ao mundo. Ora o arquivo, essa compulsão voraz, desejo impossível e melancólico de preservar intacta a passagem dos corpos (quaisquer que sejam eles) pela fricção contínua da existência. Seja como for, a autora traz nos ombros enorme responsabilidade: suas criações vão responder sempre, pela linguagem e a partir do afeto, à constatação que aparece no poema dedicado a Robert Smithson: “E isso, ao menos, todos temos em comum/– entropia e nenhum sentido” (DANZIGER, 2012, p. 22). Absurdos, fadados inexoravelmente à destruição e ao apagamento, ainda assim, ou por isso mesmo, enterramos nossos mortos, inventamos a beleza, fazemos da língua perplexidade e sobrevivência.
  2. como o desejo e a distância: a poesia de Leila Danziger nos fala assim, de longe e sempre em demanda, buscando modos de aproximação. Os muitos diálogos que estabelece, as muitas formas de endereçamento que a atravessam e constituem são prova disso, do modo como a poesia se equilibra entre a distância e o desejo. Para dizer com Blanchot (2002), ela quer e procura acolher em seus textos une voix venue d’ailleurs, construindo, para isso, um espaço de escrita que é também espaço da reflexão crítica, da citação e da alteridade – em todos esses elementos, desnecessário lembrar, é preciso que haja distanciamento, saída de si. Para dizer de uma só vez e de modo sintético: a poesia de Danziger procura dizer(-se) com palavras alheias. E vai nisso a percepção de um paradoxo: profundamente íntima e pessoal, de fato uma poesia cujo território incontornável é a biografia e a subjetividade, a criação verbal para a artista é permanentemente invadida por vozes, imagens e sons outros, vindos de outros lugares, elementos que apontam e vão confirmar, ainda uma vez, a absoluta estrangeiridade que perfaz o ato da escrita, qualquer escrita – a do poema em particular. E, consideradas as coisas sob esse ângulo, tornam-se mais claras, ganham outro sentido para além da notação estritamente pessoal, as referências que os poemas fazem a viagens, terras distantes, continentes e idiomas diversos: tudo vai revelar, em última instância, a importância do trânsito e dos deslocamentos em Três ensaios de fala, elementos que perpassam, de muitas maneiras, a construção do livro. A cada momento, é possível notar, a mesma questão reaparece sob roupagem e sentido diverso, tornando evidentes as “marcas de difíceis negociações/entre o dentro e o fora” (DANZIGER, 2012, p. 41; grifo meu). Na multiplicidade de línguas que habitam o texto (o hebraico, o alemão, o inglês e o francês), sua feição de Babel discreta, a linguagem salta e explode a sua órbita, revelando-se também obstáculo à comunicação. Na memória das viagens a Alemanha e a Israel, lugares de origem e pertencimento familiar e comunitário, o ambiente é estranho, guardando sempre um travo de desconhecimento e dúvida. E mesmo nos périplos urbanos pelo Rio de Janeiro e por Tel Aviv, territórios domados, a memória e a imaginação às vezes criam percursos inesperados, percepções que desfamiliarizam a paisagem e inundam-na de tempos e lugares outros, sobrepostos, como ocorre em poemas como “Cinelândia – Cantagalo”, “Edifício Líbano” e toda a série que tem como título a cidade israelense. A própria trama de referências literárias, artísticas e culturais, a costura de textos que compõe o volume, sai do controle em certos momentos, deixando de ser apenas leitura apaixonada da obra de nomes como Robert Smithson, Joseph Beuys ou Jacques Roubaud, passando a ser conversa em desafio, endereçamento afetivo que descobre fissuras e devolve contradições, como no poema “Joseph”, no qual apresenta suas divergências com o avô de seu filho (que também tem o nome do artista a quem a poeta está indissoluvelmente ligada): ao passo que ele preferia conhecer minúcias da cidade europeia onde nasceu, das águas que a banhavam, Danziger afirma: “eu me interesso mais/pelas impurezas do Danúbio/pelas cheias do dilúvio/e experimento uma extensa gama/de afetos insolúveis/pelas gerações/– de humanos e bichos – engendradas desde Noé” (DANZIGER, 2012, p. 18). Em cada um desses aspectos do problema, o não-pertencimento e a busca de asserção, a passagem difícil entre o que é externo e o que é interior, enfim, conferem tensão e intensidade aos versos da poeta, fazendo-os trepidar por debaixo do tom menor, da aparente harmonia que os caracterizam. Exemplo talvez radical e mais significativo desse processo vai se encontrar na focalização que os poemas fazem, em chave metalinguística e metapoética, da própria linguagem com que são compostos. diarios Em textos como “Aventurado”, “Três ensaios de fala” e, principalmente, “Eu te amo”, Danziger vai pensar sobre os mistérios que habitam a fala, suas potencialidades gregárias e estéticas, bem como seus abismos. No poema em tela, a confissão amorosa é o limite possível da linguagem e da comunicação, o ponto exato da tensão entre o desejo e a distância, uma vez que endereçamento que a locução do título carrega dirige-se sempre a um outro, alguém que pode não suportar sobre si o peso do amor revelado. Daí o tremor, a língua claudicante: “A palavra gagueja na travessia de um perigo”. Daí a angústia (o peito estreitado que vai perdendo o fôlego) no gesto da fala que, apesar de tudo, se completa: “Cada palavra/– contraída/expandida –/sabe que o risco/é parte integrante do ritmo/e gaguejar é a consciência extrema do risco da fala/do risco do afeto da fala” (DANZIGER, 2012, p. 54). O sentido da composição poética em Leila Danziger se deixa ver aqui, quem sabe: apesar dos perigos da língua [‘ferid’alíngua’, conforme define Lucíola Macêdo (2014)], a artista “sustenta a voz/e ergue a frase no ar” (DANZIGER, 2012, p. 54), construindo os seus precários monumentos verbais como um ato necessário de entrega, um salto no desconhecido de si e do mundo.

Referências

ADORNO, Theodor. Mínima Moralia. Trad. Gabriel Cohn. Rio de Janeiro: Azougue, 2008.

BLANCHOT, Maurice. Une voix venue d’ailleurs. Paris: Gallimard, 2002.

DANZIGER, Leila. Três ensaios de fala. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012.

MACÊDO, Lucíola. Ferid’alíngua: a poética de Leila Danziger. Belo Horizonte: Arquivo Maaravi, 2014; p. 1-12.

No centro de mundos em extinção — 19/11/2016

No centro de mundos em extinção

O texto a seguir tem, por assim dizer, duas vidas: foi escrito como Posfácio ao novo livro de poemas da artista carioca Leila Danziger, Ano Novo, mas também integra um projeto mais amplo, Voz que vem do futuro, poesia porvir, série de pequenos ensaios sobre livros de poesia (ainda) inéditos. De qualquer modo, é um prazer e uma honra ter a oportunidade de ler antes o livro e dizer algumas palavras sobre ele. Antes que o ano termine, a 7Letras deve lançar o volume.

*

No centro de mundos em extinção: notas sobre a poética de Leila Danziger

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Toda herança é uma tarefa, nos lembra Jacques Derrida em Espectros de Marx. E todos nós, de um jeito ou de outro, somos herdeiros: recebemos o legado de uma língua, os olhos claros ou os cabelos curvos de um antepassado, os gestos tradicionais de uma cultura, as posses ou a dívida solidária que alguém, antes de nós, acumulou e pôde deixar. Mais do que a escolhemos, é a herança – o gesto fundador e antiquíssimo da transmissão e da continuidade – que nos elege violentamente. Não escolhemos o sobrenome que vamos carregar, bem como os dados de um universo simbólico que nos chegam a partir do nascimento e que seguem conosco, como memória afetiva ou carga traumática, por toda a vida. Há algo de passivo e inconsciente nesse processo, uma vez que não é possível ter controle total sobre o que vem do passado e nos atinge. No entanto, é sempre interessante lembrar (ainda com Derrida, mas também com a Psicanálise) que a herança, em sua imensidão ritual, não está nunca completa: é preciso estar aberto para a receber e fazer seguir; acolhe-la, elegê-la também, paradoxalmente, escolhendo – ativa e voluntariamente – que elementos e traços do outro (e do passado) se quer deixar viver, e quais é preciso descartar, de um certo modo enterrando aquilo que, mesmo tendo alcançado o presente, não deve permanecer conosco. É como o trabalho do luto: para que a vida siga o seu curso, certa energia deve ser dispendida no processo complexo e virtualmente infinito de avaliação crítica, investimento emocional e exercício de recusa que marca, ou deveria marcar, a nossa relação com a herança – que é aqui um outro nome, entre tantos possíveis, para dizer da relação ambígua, indecidível entre lembrar e esquecer, que estabelecemos com os nossos mortos.

Sebald II

Se lembramos aqui a reflexão que o filósofo de Mal de arquivo – uma impressão freudiana elaborou sobre a ampla e multiforme questão da herança, isso se dá porque se está diante – neste que é o segundo livro de poemas da carioca Leila Danziger – de uma meditação delicada, extremamente pessoal e inequivocamente comunitária e política, sobre o tema geral da passagem, de uma geração a outra, de um indivíduo a outro, da vida e de tudo o que nela é herança e convite à permanência. Voz que vem do futuro, poesia porvir, Ano novo (2016), formado por poemas e imagens compostos pela autora (que também é, e talvez sobretudo, artista plástica), se arma assim, em franca conexão com tudo o que atravessa o tempo e tenta deter o seu fluxo: a vivência familiar, a experiência vertiginosa e complementar de ser, a um só tempo, filha, neta e mãe; os arquivos íntimos e as formas de retenção e registro da cultura; a memória milenar da diáspora judaica, presente na língua, nos hábitos, no próprio sobrenome que se escreve e atualiza no presente; o espaço em que se habita, enfim, a casa que abriga mais do que corpos e objetos, guardando também os afetos, a poeira, os resíduos materiais da existência que são, eles mesmos, produto e resistência ao tempo. Não é sem razão, portanto, que a poeta abra o livro duplamente em torno da imagem da casa: em primeiro lugar com as epígrafes habilmente colhidas em Manuel Antonio Pina e W. G. Sebald, nas quais já se pode ver a presença da morada e do pó, oferecendo alguns elementos que irão permear, às vezes de modo subterrâneo, às vezes abertamente, os poemas que virão: a partir de Pina, por exemplo, a casa se associa ao remorso e às ruínas, símiles da catástrofe em miniatura que está representada no livro, e na ambiguidade dos afetos que perpassam os textos, num arco que vai da nostalgia ao amor e deste à culpa e até ao ressentimento, perceptíveis em muitas das peças que têm a figura do pai, sua presença obsessiva como núcleo principal (todo o poema “Economia”, suas várias partes – cujo título já remete, a partir de sua origem no grego antigo, derivada de Oikos e Nomos, ao ambiente doméstico e à sua administração ou lei). A poeira, por sua vez, remete também ao pai e ao espaço habitável; ela é metáfora poderosa da lentidão inexorável do tempo que tudo dissolve, mas que ainda assim persiste como sedimentação sensível: retirado de um fragmento da última das narrativas que formam o volume Os emigrantes, de Sebald, o trecho apresenta um pintor que tem na passagem mesma do tempo sua matéria privilegiada, uma vez que o pó o fascina mais do que a luz: algo desse personagem, é certo, vai ao encontro da imagem do pai que os poemas de Danziger vão desenhando: melancólicos, anacrônicos, atentos aos mais ínfimos detalhes do ambiente que os cercam, eles são uma espécie de alegoria do exílio e da adaptação penosa a um novo lugar:

Nunca soube o que despertava

a lembrança

repetida sem variações

ao longo dos anos

  • o macaquinho
  • o barco
  • o lago

Era verão, certamente, junho, julho ou agosto

na escuridão crescente do século XX.

Em que momento ele percebeu a distância?

Sua mão não alcançaria mais a pelúcia do brinquedo.

(Seus pais consolam o filho único.

O barco retorna à margem.)

Desconfio que ao longo da vida, suas lembranças

não passaram de vagas leituras das frequências emitidas

pelo brinquedo perdido, submerso, em um lago de

Berlim, em cujas margens, alguns anos depois

decretou-se o fim do mundo.

(DANZIGER, 2016)

Por isso se apegam aos objetos, à imobilidade do hábito; por isso acumulam materiais, pensamentos sobre o passado e a própria poeira da casa, uma forma concentrada da permanência impossível das coisas.

Guardiã amorosa dessa memória familiar da emigração e da perda, a poeta afirma a herança que se deposita sobre os seus ombros no mesmo gesto de escritura com que parece tecer o luto pelo pai morto, pelo apartamento que se esvazia e transforma, pelo Ano Novo que se inicia ainda uma vez – mas agora marcado por uma ausência decisiva. “Retomo seus gestos de puro dispêndio/sua contabilidade-narrativa//e só eu sei/calcular o resto/da soma perfeita/______________ o saldo das perdas/dos dias” (DANZIGER, 2016): aqui, e em tantos outros momentos, Leila refaz e reencena a experiência do pai, assumindo simbolicamente o seu lugar, continuando as atividades que foram suas de modo deslocado, conferindo a elas significado diverso e inesperado. Se para o pai a relação com o mundo passa pela sensação de segurança do acúmulo e da fixidez, a artista vai também juntar, em conjuntos e obras serializadas, pedaços da realidade aparentemente banais, mas que a partir do seu esforço assumem dimensão única: jornais velhos, brinquedos infantis, livros amarelados, fotos quase apagadas; se para o pai a existência foi uma sucessão eventos quantificáveis (contas a pagar, materiais que poderiam um dia ser aproveitados), para a filha-herdeira trata-se de injetar afeto e lirismo onde antes só havia alienação e cálculo. Paradoxo e metamorfose: “vejo/a imagem indestrutível do que era/projetar-se sobre o espaço/vazio” (DANZIGER, 2016). Trabalho do luto feito na e pela poesia: o próprio livro, conforme seu título vai indicar, inaugura um novo período para a autora, assinalando igualmente o momento em que pai vem a falecer: “aquela morte extenuada/vinda momentos antes/dos fogos/de um ano novo/que iniciávamos sem ele” (DANZIGER, 2016). Num processo circular e reversível, a escrita (uma forma mínima de vida, de recomeço) se inicia com a morte, e a ela retorna, indefinivelmente, pela recursividade da memória.

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Ao longo do imenso e fragmentado poema “Economia” (que aqui escolho tomar como um texto só, apesar de a sua disposição gráfica, os intervalos que o assinalam, autorizarem outras leituras), a autora vai recordar o pai tomando, como ficou dito, o seu lugar na casa, inventariando as partes do arquivo interminável que ele edificou, selecionando e recompondo, se apropriando dos seus amontoados (suas agendas e documentos contábeis, principalmente, que em suas mãos passam a ser colagens, sobreimpressões, formas visuais incorporadas ao livro), inventando outras palavras a partir daquelas que ele deixou: “Recolho promessas de sua língua/da infância –/calcinações do solo perdido//e prospectos intactos/na língua renascida/(matéria incandescente)” (DANZIGER, 2016).

O ato da recolha enunciado é a síntese de muitos dos procedimentos formais e éticos presentes no livro (diria mesmo na poética de Leila Danziger, uma vez que se espalha também para outros de seus trabalhos plásticos e literários): recolher é, antes de tudo, reunir o que está disperso, dar organicidade e conjunto àquilo que parecia existir caoticamente, de modo insular; e é ainda índice do interesse e abertura ao outro – à memória do pai, à vivência e aprendizado feminino das avós, mas também às páginas de jornais velhos – escolhidas, recortadas e transcritas com apuro –, e aos versos e imagens de diferentes escritores e artistas (Borges, Tamara Kamenszain, Armando Reverón, Adorno, Deleuze, Paul Celan, Jean-Baptiste Debret, Marie-José Mondzain, Virginia Woolf), com os quais, em atitude de despojamento e saída de si, a artista dialoga. Nesse sentido, a atenção dispensada, a acolhida oferecida ao amontoado de papeis que, lidos em seus vestígios, revelam a “língua renascida” do pai (e da solidão do emigrante), matéria moldável e “incandescente”, com a qual as promessas não realizadas da nova vida foram se construindo, promessas que, se o poema não pode tornar real, pode ao menos nomear e reunir, dando a elas peso e visibilidade. paul-celan

Colocando a si mesma como “o Além das coisas remotas” (DANZIGER, 2016), Leila Danziger deixa entrever uma outra chave do seu trabalho: a relação que se estabelece em seus textos-imagens entre escrita e fantasmagoria. Desejando “apenas o que há de mais inútil” nos arquivos e nos depósitos de quinquilharias que formam a vida cotidiana, a autora trabalha em duplo registro sob a lógica do espectro e do espectral: se o fantasmático é marcado pela presentificação do que está ausente (atribuindo a ele densidade ontológica) e pela urgência de um retorno sempre incontrolável e intempestivo, é possível dizer que a conversa que a poeta desenvolve com seus mortos se dá sob o signo cambiável do fantasma: os que se foram não cessam de invadir o presente, ora invocados pela lembrança, ora retornando indefinidamente em meio às atividades de todos os dias, impondo a sua presença e reivindicando o seu lugar no mundo dos vivos. Assim é com o pai (cujo nome é “anagrama de flor” [DANZIGER, 2016]), de quem a poeta parece ter aprendido, repetindo-a a seu modo, isto é, transformando-a em coisa diversa, uma “escrita-contabilidade” (DANZIGER, 2016) que é capaz, num só lance, de pensar o passado e imaginar as “reservas de futuros intactos”; assim é também com as avós, às quais dedica a tocante seção “Irene e Martha”, e de quem vai receber – e estranhar, questionando-a – “a postura das meninas ao escrever” (DANZIGER, 2016), símile da vida opressa das mulheres de outro tempo, mas que parece persistir ainda agora, conforme a reflexão proposta pela autora sugere, uma vez que a passagem pelo feminino que nessa seção se dá apresenta um jogo de tempos, a oscilação entre o ontem e o hoje, o tempo já perdido das avós e o instante da escrita-recordação da poeta: ao operar assim, o texto contamina o momento atual com as questões e circunstâncias de outra época, assim como lança a luz do mundo contemporâneo sobre as formas da vida pretérita. Estruturada como um álbum de família, a seção dedicada aos avós procura arquivar, de múltiplas maneiras, os traços e rastros das mulheres que precederam a escritora: ali estão seus rostos e olhares, visíveis na expressiva foto que abre o entrecho – novo elemento da espectrografia proposta por Danziger, uma vez que a fotografia é, conforme Benjamin e Sontag, rastro e testemunha do vazio; ali estão também as suas palavras, resguardadas do esquecimento que ainda em vida atingiu suas avós (o exílio, a doença, a desmemória), e estão ali ainda as pequenas marcas corporais das parentas que puderam sobreviver a elas mesmas, já que cartões com a caligrafia de Irene e Martha compõem também a paisagem interior de Ano Novo, acrescentando mais uma camada à pulsão arquivística que atravessa a obra da artista.

Como quem fecha um ciclo, Leila Danziger de igual modo projeta o seu legado, lançando ao futuro a teia espessa de relações de pertencimento que estabelece com o passado e os seus mortos. Um outro elo da cadeia de tempos entra em cena, de vetor distinto, transtornando a visitação das coisas perdidas que marca tão decisivamente o corpo do livro: a presença pressentida do filho, também uma espécie curiosa de fantasma em Ano novo, posto que nunca sua imagem aparecerá inteira, plena, mas sempre a partir das suas marcas e pegadas – ou através da memória, como no belíssimo “Jóquei”. Nele, a poeta percebe a passagem do filho pelos rastros deixados nos objetos cotidianos: “E ler um livro/escolhido/comprado/amado/levado em viagem/por meu filho/para quem Sempre/é desde 1996/implica uma narrativa paralela/pautada pela espreita/de indícios” (DANZIGER, 2016), ativando a partir deles a imaginação e a memória: ao tentar reconstruir na cabeça os passos e emoções do rapaz, Leila acaba por ser remetida, através do labirinto de hiperlinks que todos carregamos conosco, para um instante da infância, um entrecho no qual o filho, recém iniciado no mundo das palavras, apresenta a dúvida tão simples e desestabilizadora, desconcertante por seu despojamento e coeficiente de verdade: “Você é feliz,/mamãe?” (DANZIGER, 2016). A resposta à pergunta é uma só, claro está, mas a importância da cena é relevante: é possível perceber aqui o contraste entre o tom grave e lutuoso dos trechos nos quais o catálogo dos mortos e dos traumas passados é revisto, e a existência doce do filho, outra ponta de um círculo de relações que dessa vez se abre ao sobressalto e ao inesperado. O legado de certa desordem, certo descompasso com os horários (“a ampulheta atordoada” [DANZIGER, 2016], diz a poeta) é o que ela percebe de si na figura fugidia – nos poemas – do filho. A “origem no turbilhão”, aquela que mistura e faz colidir inícios e fins, antepassados e descendentes, move as mãos (e o olhar) da autora, que vai localizar respeitosamente no outro pedaços dela mesma, ora assumindo o encargo de continuar o giro da História, vendo-se no centro de “uma extensão do deserto/carregado de rumores/de línguas semíticas” (DANZIGER, 2016), ora reconhecendo, no rapaz que se apressa, sopra flores, carrega livros, que ela também vive e pulsa, familiar e desconhecida de si.

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Centro secreto do livro, a circulação dos afetos entre as gerações – a passagem dos “mundos em extinção” dos mais velhos (que é também o mundo do genocídio, das viagens e da violência encontrada na nova terra, cheia de ameaças e sonhos desfeitos) ao quarto cheio da luminosidade leve do adolescente (energia vital que se refaz, princípio-esperança que lê e respira) – ganha formulação poética delicada e original, inscrevendo-se na linhagem dos poetas brasileiros que perscrutaram o abismo dos começos (Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e, no cenário contemporâneo, Mariana Ianelli (Tempo de voltar) Age de Carvalho – de modo especial com o tocante Ainda: em viagem – e William Zeytounlian, com os ecos armênios de Diáspora) e puderam descrever o que viram, por mais obscuro ou solar que fosse. diaspora

Percalço, percurso: a poesia de Carlito Azevedo — 05/11/2016

Percalço, percurso: a poesia de Carlito Azevedo

Senhoras e senhores,

Saudando as ocupações que paralisam as atividades na UFMG (e em tantas outras escolas e universidades do país), divulgo o curso que oferecerei no ano que vem – em algum momento destes nossos tempos de pós-catástrofe – sobre a poesia imensa e decisiva de Carlito Azevedo. Aos que estiverem em BH ou arredores às sextas-feiras do início do ano da graça de 2017, convido e prometo:

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Universidade Federal de Minas Gerais

Faculdade de Letras

Prof. Dr. Gustavo Silveira Ribeiro

2017.1

Título

Estudos Temáticos de Literatura Brasileira:

PERCALÇO, PERCURSO: A POESIA DE CARLITO AZEVEDO

Ementa

O curso propõe ler, de modo sistemático e multidirecional, a poesia de um dos mais relevantes autores da atualidade: o carioca Carlito Azevedo – poeta, tradutor e editor. O objetivo é analisar o percurso individual do autor, suas idiossincrasias, virtudes e questões, a partir da proposição de um eixo central de investigação (que servirá também, quem sabe, para problematizar parte significativa da produção poética contemporânea do Brasil). A hipótese é a de que pode ser observada, na obra do autor, a passagem gradual, contínua e tantas vezes reversível – sem grandes cesuras ou soluções de continuidade – entre, de um lado, uma prática criativa mais ligada à tradição moderna da lírica do Ocidente (e também das especificidades do caso brasileiro, ambos mais ou menos coincidentes no que concerne a uma concepção geral da poesia) e, de outro, um exercício de imaginação poética que se vincula ao que tem sido definido como campo privilegiado da antipoesia. Desdobrável em outras dualidades possíveis, o mesmo movimento pode ser percebido também, por exemplo, na passagem entre o verso e a prosa – bastante visível na sequência de livros do autor, de Collapsus linguae (1991) a Monodrama (2009) –; da imagem rara, delicadamente elaborada, à figuração do comum e do degradado; no cânone tradutório (pressuposto de leituras e interesses) do autor, que se concentrava na cena francesa hegemônica e agora vai ter como foco autores como o chileno Nicanor Parra, entre outros; na inscrição enfática, por fim, do elemento ético e político em seus últimos poemas e intervenções públicas, em detrimento de um trabalho marcado inicialmente por outras demandas. Todos esses aspectos da obra poética em tela serão postos em destaque a partir da leitura dos livros do autor, bem como de trechos das revistas e publicações que editou, além de textos de poetas brasileiros e estrangeiros que, de um modo ou outro, estabelecem com a sua produção diálogo e zona de intersecção.

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Programa 

  1. Poesia, antipoesia e além
  • Pós-modernidade, pós-utopia, pós-ditadura: Silviano Santiago, Haroldo de Campos, Heloísa Buarque de Hollanda, Idelber Avelar, Marcos Siscar
  • A cena brasileira, anos 80 – esboços historiográficos: Marcos Siscar, Ricardo Domeneck, Flora Sussekind
  • Além da poesia: Jean-Marie Gleize, Florencia Garramuño
  • Retrato do artista

2. Minha voz é destroço: a procura da poesia

  • Construção e colapso (da língua)
  • Deserções da geometria: visualidades
  • Diferença e repetição: o poema e suas versões
  • Ao rés do chão: variações sobre o espaço urbano

         3. Contra um século convulsivo: poesia e política

  • Nenhum poema é mais difícil do que a sua época: forma e História
  • Passo de prosa
  • A experiência do caos, a inscrição da crise
  • O desvio e as margens: excluídos, rebeldes, caminhantes

          4. Brinde-lamentação: reler, traduzir, editar

  • Poesia, língua extinta
  • Políticas da citação
  • As tarefas do tradutor: caminhos, pistas, perspectivas
  • Poeta-editor, três cenas (Inimigo Rumor, coleção Ás de colete, Página Risco, de O Globo)

          5. O desafio do presente: Livro das postagens

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Bibliografia

ANDRADE, Carlos Drummond. Poesia completa e prosa (Nova Aguilar, 1986)

AZEVEDO, Carlito. As banhistas (Imago, 1993)

AZEVEDO, Carlito. Collapsus linguae (Lynx, 1991)

AZEVEDO, Carlito. Livro das postagens (7Letras, 2016)

AZEVEDO, Carlito. Monodrama (7Letras, 2009)

AZEVEDO, Carlito. Sob a noite física (Imago, 1996)

AZEVEDO, Carlito. Sublunar (7Letras, 2001)

AZEVEDO, Carlito. Versos de circunstância (7Letras, 2001)

BARTHES, Roland. Diário do luto (Martins Fontes, 2013)

CALIXTO, Fabiano. Música possível (Cosac Naify, 2006)

CAMPOS, Haroldo. O arco-íris branco (Imago, 1997)

CICERO, Antonio (org.) Forma e sentido contemporâneo: poesia (EdUERJ, 2012)

DERRIDA, Jacques. Circonfissão (Jorge Zahar, 1996)

DERRIDA, Jacques. Che cos’è la poesia? (Angelus Novus, 2003)

DERRIDA, Jacques. Essa estranha instituição chamada literatura (Ed. UFMG, 2014)

DERRIDA, Jacques. La loi du genre. In: Parages (Galilée, 1986)

DIDI-HUBERMANN, Georges. A imagem sobrevivente (Contraponto, 2012)

DIDI-HUBERMANN, Georges. A sobrevivência dos vaga-lumes (Ed. UFMG, 2010)

DOMENECK, Ricardo. A cadela sem logos (Cosac Naify, 2007)

GARCIA, Marília. 20 poemas para o seu walkman (Cosac Naify, 2007)

GARRAMUNO, Florencia. Frutos estranhos (Rocco, 2014)

JARRY, Alfred. O amor absoluto (Imago, 1992)

LIMA, Luiz Costa. Intervenções (Edusp, 2012)

LINS, Vera. O poema em tempos de barbárie e outros ensaios (7Letras, 2013)

LOSSO, Eduardo Guerreiro B. Luz extática por entre nuvens niilistas (Editora Caetés, 2010)

MELO NETO, João Cabral. Educação pela pedra e depois (Nova Fronteira, 1997)

MELO NETO, João Cabral. Serial e antes (Nova Fronteira, 1997)

MELO, Tarso. Planos de fuga e outros poemas (Cosac Naify, 2005)

NANCY, Jean-Luc. Resistência da poesia (Vendaval, 2002)

NATALI, Marcos. Além da literatura (Literatura e Sociedade, 2006)

NATALI, Marcos & SISCAR, Marcos (org.) Margens da democracia (Ed. UNICAMP, 2016)

PARRA, Nicanor. Poemas & antipoemas (Catedra, 2005)

PASOLINI, Pier Paolo. Poemas (Cosac Naify, 2015)

PENNA, João Camillo. Comunidades sem fim (Circuito, 2015)

PENNA, João Camillo. Escritos da sobrevivência (7Letras, 2013)

PEDROSA, Celia (org.) Subjetividades em devir (7Letras, 2008)

PUCHEU, Alberto. Apoesia contemporânea (Azougue, 2014)

REDONDO, Tercio. Caminhos da lírica brasileira contemporânea (Nankin, 2014)

RIBEIRO, G. S. A experiência da destruição na poesia de Carlito Azevedo (Aletria, 2014)

RIBEIRO, G. S. Expressão lírica de um mundo em colapso: Carlos Drummond de Andrade e Carlito Azevedo (Ipotesi, 2016)

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos (Rocco, 2000)

SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra (Rocco, 2002)

SANTIAGO, Silviano. Ora direis, puxar conversa! (Ed. UFMG, 2005)

SCRAMIN, Susana. Ciranda de poesia (EdUERJ, 2010)

SCRAMIN, Susana [org.] O duplo estado da poesia (Iluminuras, 2015)

SELIGMANN-SILVA, Márcio [org.] Catástrofe e representação (Escuta, 2003)

SIMON, Iumna. Negativo e ornamental: um poema de Carlito Azevedo em seus problemas (Novos Estudos, 2011)

SISCAR, Marcos. A soberba da poesia (Lumme, 2013)

SISCAR, Marcos. De volta ao fim: o fim das vanguardas como questão da poesia contemporânea (7Letras, 2016)

SISCAR, Marcos. Poesia e crise (Ed. UNICAMP, 2010)

STERZI, Eduardo. Cadáveres, vaga-lumes, fogos-fátuos (Celeuma, 2013)

SUSSEKIND, Flora. A voz e a série (Ed. UFMG/Sette Letras, 1998)

SUSSEKIND, Flora. Papéis colados (Ed. UFRJ, 2002)

WEINTRAUB, Fábio. O tiro, o freio, o mendigo e o outdoor: representações do espaço urbano na poesia brasileira pós-1990 (USP, 2013)

 

*

 

Inimigo Rumor [vários] (Cosac Naify)

Modo de usar & co. [vários] (On-line)

O Globo [Caderno Prosa e Verso, página Risco, 2014]

Introdução à Literatura Brasileira (2016.2) — 13/09/2016

Introdução à Literatura Brasileira (2016.2)

 

Ementa

Leitura e estudo de obras literárias que ocupam pontos-chave no cânone literário brasileiro.

 

Programa

 

  1. Tempo, origem, direção

 

  1. A condição colonial

 

  1. Uma literatura empenhada

 

  1. Leituras do cânone:

 

  • “Sermão de Santo António aos peixes” – Pe. Antônio Vieira
  • Marília de Dirceu – Tomás Antônio Gonzaga
  • Poesia indianista – Gonçalves Dias
  • Memórias de um sargento de milícias – Manuel Antônio de Almeida
  • O Ateneu – Raul Pompéia
  • Dom Casmurro – Machado de Assis
  • Poesia Pau-Brasil/Manifesto antropófago – Oswald de Andrade

 

Cronograma

 

Aula 1 – Apresentação do curso.

 

Aula 2 – Introdução: conceitos de literatura brasileira: três hipóteses

 

Aula 3 – Tempo, origem, direção (I) Leitura de “O tempo preocupado”, Ettore Finazzi-Agrò.

 

Aula 4 – Tempo, origem, direção (II) Leitura de “O tempo preocupado”, Ettore Finazzi-Agrò.

 

Aula 5 – Tempo, origem, direção (III) Leitura de “Colônia, culto e cultura”, Alfredo Bosi.

 

Aula 6 – Tempo, origem, direção (IV) Leitura de “Colônia, culto e cultura”, Alfredo Bosi.

 

Aula 7 – A condição colonial. Manifestações literárias (I) Leitura de “Sermão de Santo Antonio aos peixes”, Pe. Antonio Vieira. Texto: “Esquema para Vieira”, João Adolfo Hansen.

 

Aula 8 – A condição colonial. Manifestações literárias (II) Leitura de “Sermão de Santo Antonio aos peixes”, Pe. Antonio Vieira. Texto: “Vieira ou a cruz da desigualdade”, Alfredo Bosi.

 

Aula 9 – A condição colonial. Manifestações literárias (III) Leitura de Marília de Dirceu, Tomás Antônio Gonzaga. Texto: Literatura europeia e a Idade Média latina, Ernst Robert Curtius.

 

Aula 10 – A condição colonial. Manifestações literárias (IV) Leitura de Marília de Dirceu, Tomás Antônio Gonzaga. Texto: Literatura europeia e a Idade Média latina, Ernst Robert Curtius.

 

Aula 11 – A condição colonial. Manifestações literárias (V) Leitura de Marília de Dirceu, Tomás Antônio Gonzaga. Texto: Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, Antonio Candido.

 

Aula 12 – A condição colonial. Manifestações literárias (VI) Considerações sobre a poesia de Claudio Manoel da Costa. Texto: Esses penhascos, Sérgio Alcides.

 

Aula 13 – Uma literatura empenhada. O período romântico (I) Considerações iniciais. Textos: “A visão romântica”, Benedito Nunes; Formação da literatura brasileira, Antonio Candido.

 

Aula 14 – Uma literatura empenhada. O período romântico (II) Leitura de Poesia indianista, Gonçalves Dias. Textos: “Anchieta ou as flechas opostas do sagrado”, Alfredo Bosi; Formação da literatura brasileira, Antonio Candido.

 

Aula 15 – Uma literatura empenhada. O período romântico (III) Leitura de Poesia indianista, Gonçalves Dias. Textos: “Anchieta ou as flechas opostas do sagrado”, Alfredo Bosi; Formação da literatura brasileira, Antonio Candido.

 

Aula 16 – Uma literatura empenhada. O período romântico (IV) Leitura de Poesia indianista, Gonçalves Dias. Textos: “Gonçalves Dias”, Manuel Bandeira; Formação da literatura brasileira, Antonio Candido.

 

Aula 17 – Uma literatura empenhada. O período romântico (V) Leitura de Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antonio de Almeida. Leitura: “Dialética da malandragem”, Antonio Candido; “No tempo do rei”, Silviano Santiago.

 

Aula 18 – Uma literatura empenhada. O período romântico (VI) Leitura de Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antonio de Almeida. Leitura: “Dialética da malandragem”, Antonio Candido; “No tempo do rei”, Silviano Santiago.

 

Aula 19 – Uma literatura empenhada. O período romântico (VII) Leitura de Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antonio de Almeida. Leitura: “Dialética da malandragem”, Antonio Candido; “No tempo do rei”, Silviano Santiago.

 

Aula 20 – O romance oitocentista (I) Leitura de O Ateneu, Raul Pompeia. Textos: Retórica e paixão, Leyla Perrone-Moisés; “O Ateneu, opacidade e destruição”, Alfredo Bosi.

 

Aula 21 – O romance oitocentista (II) Leitura de O Ateneu, Raul Pompeia. Textos: Retórica e paixão, Leyla Perrone-Moisés; “O Ateneu, opacidade e destruição”, Alfredo Bosi.

 

Aula 22 – O romance oitocentista (III) Leitura de O Ateneu, Raul Pompeia. Textos: Retórica e paixão, Leyla Perrone-Moisés; “O Ateneu, opacidade e destruição”, Alfredo Bosi.

 

Aula 23 – O romance oitocentista (IV) Leitura de Dom casmurro, Machado de Assis. Textos: “A poesia envenenada de Dom casmurro”, Roberto Schwartz; “Retórica da verossimilhança”, Silviano Santiago.

 

Aula 24 – O romance oitocentista (V) Leitura de Dom casmurro, Machado de Assis. Textos: “A poesia envenenada de Dom casmurro”, Roberto Schwartz; “Retórica da verossimilhança”, Silviano Santiago.

 

Aula 25 – O romance oitocentista (VI) Leitura de Dom casmurro, Machado de Assis. Textos: “A poesia envenenada de Dom casmurro”, Roberto Schwartz; “Retórica da verossimilhança”, Silviano Santiago.

 

Aula 26 – O romance oitocentista (VII) Leitura de Dom casmurro, Machado de Assis. Textos: “A poesia envenenada de Dom casmurro”, Roberto Schwartz; “Retórica da verossimilhança”, Silviano Santiago.

 

Aula 27 – Paródia e palimpsesto: o movimento Modernista (I) Leitura de Poesia Pau-Brasil & Manifesto Antropófago, Oswald de Andrade. Texto: “A única lei do mundo”, Alexandre Nodari; Oswald Canibal, Benedito Nunes.

 

Aula 28 – Paródia e palimpsesto: o movimento Modernista (II) Leitura de Poesia Pau-Brasil & Manifesto Antropófago, Oswald de Andrade. Texto: “A única lei do mundo”, Alexandre Nodari; Oswald Canibal, Benedito Nunes.

 

Aula 29 – Orientações para o trabalho final. Considerações finais.

 

Aula 30 – Considerações finais. Encerramento.

 

 

Bibliografia

 

ALCIDES, Sérgio. Estes penhascos: Cláudio Manoel da Costa e a paisagem das Minas 1753-1773 (Hucitec, 2003)

ALMEIDA, Manuel Antônio. Memórias de um sargento de milícias (Cia. das Letras, 2013)

ALENCAR, José. Iracema (Companhia das Letras, 2016)

ALENCAR, José. O Guarani (Ateliê, 2014)

ANDRADE, Mário. Aspectos da literatura brasileira (Martins, 1986)

ANDRADE, Mário. Macunaíma (Martins, 1997)

ANDRADE, Mário. Obra imatura (Agir, 2013)

ANDRADE, Mário. Poesia completa [2v.] (Agir, 2012)

ANDRADE, Oswald. A utopia antropofágica (Globo, 2011)

ANDRADE, Oswald. Poesia Pau-Brasil (Globo, 1997)

ANJOS, Augusto. Eu e outras poesias (Lacerda Editores, 1999)

ASSIS, Machado. Obras completas [3v.] (Nova Aguilar, 1986)

AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos (Ateliê, 2001)

BANDEIRA, Manuel. Apresentação da Poesia Brasileira (Cosac, 2011)

BAPTISTA, Abel Barros. Autobibliografias (Ed. UNICAMP, 2003)

BAPTISTA, Abel Barros. O livro agreste (Ed. UNICAMP, 2005)

BOSI, Alfredo. Céu, inferno (34, 2003)

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização (Companhia das Letras, 1992)

BOSI, Alfredo. Literatura e resistência (Companhia das Letras, 2005)

BOSI, Alfredo. O enigma do olhar (Companhia das Letras, 2009)

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira (Ouro sobre Azul, 2005)

CANDIDO, Antonio. Na sala de aula (Ática, 1996)

CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade (Ouro sobre Azul, 2015)

CANDIDO, Antonio. Vários escritos (Ouro sobre Azul, 2006)

CAMPOS, Augusto. Re-visão de Kilkerry (Brasiliense, 1985)

CAMPOS, Haroldo. O sequestro do barroco (Iluminuras, 2011)

CAMPOS, Haroldo. Metalinguagem e outras metas (Perspectiva, 2000)

CAMPOS, Haroldo. Uma poética da radicalidade (Globo, 1999)

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil (José Olympio, 1986)

CRUZ E SOUZA, João. Missal & Bróqueis (Martins Fontes, 2001)

CUNHA, Euclides. Os sertões (Ateliê, 2003)

DIAS, Gonçalves. Obra completa (Nova Aguilar, 1988)

DIAS, Gonçalves. Poesia indianista (Martins Fontes, 2001)

FILHO, Domício Proença (org.) Poesia dos Inconfidentes (Nova Aguilar, 2005)

FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Entretempos (Edusp, 2013)

FOOT HARDMAN, Francisco. A vingança da Hileia (Ed. UNESP, 2009)

GINZBURG, Jaime. Crítica em tempos de violência (Edusp, 2012)

GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu (Nova Aguilar, 2005)

HANSEN, João Adolfo. A sátira e o engenho (Ateliê, 2004)

HANSEN, João Adolfo (org.) Estudos sobre Vieira (Ateliê, 2011)

HOLLANDA, Sérgio Buarque. Capítulos de literatura colonial (Brasiliense, 1991)

HOLLANDA, Sérgio Buarque. O espírito e a letra [2 v.] (Companhia das Letras, 2002)

NODARI, Alexandre. A posse contra a propriedade: pedra de toque do Direito Antropofágico (UFSC, 2007)

NODARI, Alexandre. A única lei do mundo (É realizações, 2011)

NUNES, Benedito. Oswald canibal (Perspectiva, 1987)

PÉCORA, Alcir. Máquina de gêneros (Edusp, 2001)

PÉCORA, Alcir. Teatro do sacramento (Edusp, 1994)

PERRONE-MOISÉS, Leyla. O Ateneu: retórica e paixão (Brasiliense, 1988)

POMPÉIA, Raul. O Ateneu (Cia. das Letras, 2013)

ROCHA, João Cezar Castro (org.) Antropofagia hoje? (É Realizações, 2011)

ROCHA, João Cezar Castro (org.) Nenhum Brasil existe (Topbooks, 2003)

SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa (Paz e Terra, 1982)

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos (Rocco, 2000)

SCHWARZ, Roberto. Duas meninas (Companhia das Letras, 1997)

SCHWARZ, Roberto. Que horas são? (Companhia das Letras, 1999)

SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo (34, 2003)

VIEIRA, Antônio. Sermões (Companhias das Letras, 2011)

Caminhos da crítica no presente — 03/08/2016

Caminhos da crítica no presente

 

Esther

Ementa

O curso propõe investigar algumas das tendências fundamentais da crítica literária e cultural brasileira dos últimos anos, procurando compreender, ao mesmo tempo, a sua poética particular e os pressupostos teóricos que servem de base para o gesto de apropriação, para o salto no escuro que pretendem executar. A partir da leitura de autores, ensaios e trechos selecionados, o traçado de algumas linhas de força irá se esboçar: a) a crítica biográfica; b) a leitura filosoficamente informada da literatura brasileira; c) a proposição de novas temporalidades e eixos historiográficos; d) os percursos crítico-criativos; e) a irrupção da biopolítica e da subalternidade; f) as articulações entre cultura e barbárie no Brasil.

Programa

  1. Repropor o tempo
  • “O tempo preocupado: para uma leitura genealógica das figuras literárias” – Ettore Finazzi-Agrò (Entretempos)
  • “Maranhão-Manhattan: uma ponte entre nós” – Marília Librandi Rocha (Maranhão-Manhattan)
  • “A origem em ausência: a figuração do índio na cultura brasileira” – Ettore Finazzi-Agrò (Entretempos)

 

2. Escrever a violência

  • “Tróia de Taipa: Canudos e os irracionais” – Francisco Foot Hardman (Morte e progresso)
  • “Literatura e cegueira” – Jaime Ginzburg (Crítica em tempos de violência)
  • “Imagens precárias: inscrições tênues da violência ditatorial no Brasil”, Márcio Seligmann-Silva

 

3. Poesia e pensamento

  • “A cisma da poesia brasileira” – Marcos Siscar (Poesia e crise)
  • “O discurso da crise e a democracia por vir”, Marcos Siscar (Poesia e crise)
  • “Apoesia contemporânea” – Alberto Pucheu (Apoesia contemporânea)
  • “Terra devastada: persistências de uma imagem” – Eduardo Sterzi (Remate de Males)
  • “O poema em tempos de barbárie”, Vera Lins (O poema em tempos de barbárie e outros ensaios)

 

4. O jogo da diferença

  • “Além da literatura” – Marcos Natali (Literatura e sociedade)
  • “Questões de herança: Do amor à literatura (e ao escravo)” – Marcos Natali (Literafro)
  • “O sujeito carcerário” – João Camillo Penna (Escritos da sobrevivência)
  • “O espelho da dependência” – João Camillo Penna (Comunidades sem fim)
  • “Jagunços, topologia, tipologia” – João Camillo Penna (Modos da margem)

 

5. Campo dos possíveis

  • “Pelo colorido, para além do cinzento” – Alberto Pucheu (Pelo colorido, para além do cinzento)
  • “Poéticas do animal” – Maria Esther Maciel (Pensar/escrever: o animal)
  • “A Gaia ciência” – José Miguel Wisnik (Sem receita: ensaios e canções)
  • “Um mundo de gente” – Eduardo Viveiros de Castro & Débora Danowski (Há mundos por vir?)
  • “Limitar o limite: modos de subsistência”, Alexandre Nodari
  • “Biografia literária: duas tradições”, Antonio Marcos Pereira (Outra Travessia)
  • ““Reflexões sobre a metodologia de pesquisa nos estudos literários”, Fábio Akcelrud Durão

 

Cronograma 

Aula 1 – Apresentação do curso, do professor e da turma. Relação das leituras e dos métodos de avaliação.

Aula 2 – Introdução. A questão do ensaio: escrever a leitura (I) Considerações sobre O rumor da língua (Parte I), Roland Barthes. 

Aula 3 – Introdução. A questão do ensaio: escrever a leitura (II) Considerações sobre O gênero intranquilo, João Barrento.

Aula 4 – Introdução. A questão do ensaio: escrever a leitura (III) Considerações sobre Roland Barthes e João Barrento.

Aula 5 – Introdução. A questão do ensaio: escrever a leitura (IV) O ensaísmo no Brasil: hipóteses. Considerações sobre O estilo tropical, Roberto Ventura & A crítica literária na Universidade brasileira, Rachel Esteves Lima.

Aula 6 – Repropor o tempo (I) Leitura de “A origem em ausência: a figuração do índio na cultura brasileira” – Ettore Finazzi-Agrò. Leitura de apoio: “Os involuntários da pátria”, Eduardo Viveiros de Castro 

Aula 7 – Repropor o tempo (II) Leitura de “Maranhão-Manhattan: uma ponte entre nós”, Marília Librandi-Rocha. Leitura de apoio: Revisão de Sousândrade, Haroldo & Augusto de Campos.

Aula 8 – Escrever a violência (I) Leitura de “Troia de taipa: Canudos e os irracionais”. Leitura de apoio: “Teoria do conhecimento, teoria do progresso”, Walter Benjamin (Passagens)

Foot

Aula 9 – Escrever a violência (II) Leitura de “Literatura e cegueira”, Jaime Ginzburg. Leitura de apoio: Minima moralia, Theodor Adorno.

Aula 10 – Escrever a violência (III) Leitura de “Imagens precárias: inscrições tênues da violência ditatorial no Brasil”, Márcio Seligmann-Silva. Leitura de apoio: “Pequena história da fotografia”, Walter Benjamin.

Aula 11 – Poesia e pensamento (I) Leitura de “O discurso da crise e a democracia por vir”, Marcos Siscar. Leituras de apoio: A soberba da poesia, Marcos Siscar & Che cos’è la poesia?, Jacques Derrida.

Aula 12 – Poesia e pensamento (II) Leitura de “Apoesia contemporânea”, Alberto Pucheu. Leitura de apoio: O que é o contemporâneo?, Giorgio Agamben.

Aula 13 – Poesia e pensamento (III) Leitura de “Terra devastada: persistências de uma imagem”, Eduardo Sterzi. Leitura de apoio: A imagem sobrevivente, Georges Didi-Huberman.

Aula 14 – Poesia e pensamento (IV) Leitura de “O poema em tempos de barbárie”, Vera Lins. Leitura de apoio: O meridiano, Paul Celan.

Jaime

Aula 15 – Poesia e pensamento (V) Leitura de “A cisma da poesia brasileira”, Marcos Siscar. Leitura de apoio: Poesia e crítica de poesia hoje: heterogeneidade, crise, expansão”, Celia Pedrosa.

Aula 16 – O jogo da diferença (I) Leitura de “Além da literatura”, Marcos Natali. Leitura de apoio: Essa estranha instituição chamada literatura, Jacques Derrida.

Aula 17 – O jogo da diferença (II) Leitura de “Questões de herança: do amor à literatura (e ao escravo)”, Marcos Natali. Leitura de apoio: Pode o subalterno falar?, Gayatri Spivak.

Aula 18 – O jogo da diferença (III) Leitura de “O sujeito carcerário”, João Camillo Penna. Leitura de apoio: Pode o subalterno falar?, Gayatri Spivak.

Aula 19 – O jogo da diferença (IV) Leitura de “O espelho da dependência”, João Camillo Penna. Leitura de apoio: Homo sacer: o poder soberano e a vida nua, Giorgio Agamben.

Aula 20 – O jogo da diferença (V) Leitura de “Jagunços: topologia, tipologia”, João Camillo Penna. Leitura de apoio: Homo sacer: o poder soberano e a vida nua, Giorgio Agamben.

Aula 21 – Experiências, espessuras (I) Leitura de “Pelo colorido, para além do cinzento”, Alberto Pucheu. Leitura de apoio: Aula, Roland Barthes.

Aula 22 – Experiências, espessuras (II) Leitura de “Limitar o limite: modos de subsistência”, Alexandre Nodari. Leitura de apoio: Manifesto antropófago, Oswald de Andrade.

Aula 23 – Experiências, espessuras (III) Leitura de “Poéticas do animal”, Maria Esther Maciel. Leitura de apoio: “Devir intenso, devir animal, devir imperceptível”, Gilles Deleuze & Felix Guattari.

Aula 24 – Experiências, espessuras (IV) Leitura de “Biografia literária: duas tradições”, Antonio Marcos Pereira. Leitura de apoio: Janelas indiscretas, Eneida Maria de Souza.

Aula 25 – Experiências, espessuras (V) Leitura de “Um mundo de gente”, Eduardo Viveiros de Castro & Débora Danowski. Leitura de apoio: A sociedade contra o Estado, Pierre Clastres.

Antropoceno

Aula 26 – Experiências, espessuras (VI) Leitura de “A Gaia ciência”, José Miguel Wisnik.

Aula 27 – Experiências, espessuras (VII) Leitura de “Reflexões sobre a metodologia de pesquisa nos estudos literários”, Fábio Akcelrud Durão.

Aula 28 – Orientação para os trabalhos finais.

Aula 29 – Orientação para os trabalhos finais.

Aula 30 – Avaliação geral do curso. Tentativas de síntese.

 

Marília 

 

Bibliografia 

ADORNO, Theodor W. Ensaio como forma. In: Notas sobre literatura I (34, 2003)

AVELAR, Idelber. Cânone literário e valor estético (Revista da ABRALIC, 2010)

BAPTISTA, Abel Barros. De espécie complicada (Angelus Novus, 2010)

BAPTISTA, Abel Barros. O livro agreste (Ed. UNICAMP, 2005)

BENJAMIN, Walter. Passagens (Imprensa Oficial/UFMG, 2006)

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização (Companhia das Letras, 1992)

CAMPOS, Haroldo. Revisão de Sousândrade (Perspectiva, 2004)

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira (Ouro sobre Azul, 2005)

CANDIDO, Antonio. Vários escritos (Ouro sobre Azul, 2006)

DERRIDA, Jacques. De que amanhã… (Jorge Zahar, 2004)

DERRIDA, Jacques. Essa estranha instituição chamada literatura (Ed. UFMG, 2014)

DERRIDA, Jacques. La loi du genre. In: Parages (Galilée, 1986)

DIDI-HUBERMANN, Georges. A imagem sobrevivente (Contraponto, 2012)

DIDI-HUBERMANN, Georges. A sobrevivência dos vaga-lumes (Ed. UFMG, 2010)

FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Entretempos (UNESP, 2013)

FOOT HARDMAN, Francisco. A vingança da Hileia (UNESP, 2009)

FOOT HARDMAN, Francisco & GINZBURG, J. & SELIGMANN-SILVA, M. (org.) Escritas da violência [2 vol.] (7Letras, 2012)

FOOT HARDMAN, Francisco. Morte e progresso (UNESP, 2001)

FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a história (Graal, 2012)

GARRAMUNO, Florencia. Frutos estranhos (Rocco, 2014)

GINZBURG, Jaime. Crítica em tempos de violência (Edusp, 2012)

LIMA, Luiz Costa. Frestas. A teorização em um país periférico (Contraponto, 2013)

LIMA, Luiz Costa. Sebastião Uchoa Leite: resposta ao agora (Dobra, 2012)

MACIEL, Emílio. Fundamento-abismo: Machado de Assis na Formação da literatura brasileira (O Eixo e a Roda, 2011)

MACIEL, Maria Esther. Literatura e animalidade (Civilização Brasileira, 2016)

MACIEL, Maria Esther. Pensar/escrever: o animal – ensaios de zoopoética e biopolítica (Ed. UFSC, 2011)

MIRANDA, Wander Melo. Corpos escritos (Edusp/UFMG, 1992)

MIRANDA, Wander Melo. Nações literárias (Ateliê, 2010)

NATALI, Marcos. Além da literatura (Literatura e Sociedade, 2006)

NATALI, Marcos & SISCAR, Marcos (org.) Margens da democracia (Ed. UNICAMP, 2016)

NATALI, Marcos. O sacrifício da literatura (ALEA, 2013)

NATALI, Marcos. Questões de herança: Do amor à literatura (e ao escravo) (Literafro, 2013)

NODARI, Alexandre. Limitar o limite: modos de subsistência (2014)

PENNA, João Camillo. Comunidades sem fim (Circuito, 2015)

PENNA, João Camillo. Escritos da sobrevivência (7Letras, 2013)

PENNA, João Camillo (org.) Modos da margem (Aeroplano, 2015)

PEDROSA, Celia (org.) Subjetividades em devir (7Letras, 2008)

PEREIRA, Antonio Marcos. Biografia literária: duas tradições. In: Outra Travessia (2013)

PUCHEU, Alberto. Apoesia contemporânea (Azougue, 2014)

PUCHEU, Alberto. Pelo colorido, para além do cinzento (Azougue, 2007)

ROCHA, João Cezar Castro. Crítica literária: em busca do tempo perdido? (Civilização Brasileira, 2011)

ROCHA, Marília Librandi. Maranhão-Manhattan (7Letras, 2009)

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos (Rocco, 2000)

SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra (Rocco, 2002)

SANTIAGO, Silviano. Ora direis, puxar conversa! (Ed. UFMG, 2005)

SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Cena do crime (José Olympio, 2013)

SCHWARZ, Roberto. Martinha versus Lucrécia (Companhia das Letras, 2012)

SCHWARZ, Roberto. O pai de família e outros ensaios (Paz e Terra, 1992)

SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.) Catástrofe e representação (Escuta, 2003)

SELIGMANN-SILVA, Márcio. História Memória Literatura (Ed. UNICAMP, 2003)

SISCAR, Marcos. A soberba da poesia (Lumme, 2013)

SISCAR, Marcos. Poesia e crise (Ed. UNICAMP, 2010)

SOUZA, Eneida Maria. Janelas indiscretas (Ed. UFMG, 2011)

SOUZA, Eneida Maria. Pedro Nava, o risco da memória (Funalfa, 2004)

SOUZA, Eneida Maria. Tempo de pós-crítica (Veredas & Cenários, 2007)

STERZI, Eduardo. A prova dos nove: alguma poesia moderna e a tarefa da alegria (Lumme, 2008)

STERZI, Eduardo. Cadáveres, vaga-lumes, fogos-fátuos (Celeuma, 2013)

STERZI, Eduardo. O reino e o deserto: a inquietante medievalidade do moderno (Boletim de Pesquisa NELIC, 2012)

STERZI, Eduardo. Terra devasta: persistências de uma imagem (Remate de Males, 2014)

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem (Cosac, 2002)

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo & DANOWSKI, Débora. Há mundos por vir? (Cultura e Barbárie, 2014)

WISNIK, José Miguel. Sem receita: ensaios e canções (PubliFolha, 2004)

WISNIK, José Miguel. Veneno remédio (Companhia das Letras, 2008)

A poesia fora de si: outros espaços e novas textualidades no Brasil — 22/07/2016

A poesia fora de si: outros espaços e novas textualidades no Brasil

Ementa

Série crescente de reflexões no campo teórico do presente vem tentando construir uma elaboração conceitual demorada em torno ao fenômeno de transformação e questionamento dos sentidos e dos limites da noção tradicional de literatura, e da poesia em particular, que nessas novas abordagens e tentativas de compreensão tem recebido nomes como “literatura expandida” (PATO, 2012), “escrita fora de si” (KIFFER, 2014) e “Literatura posautónoma” (LUDMER, 2007), para citar apenas alguns exemplos. Todos esses conceitos apontam para um ponto em comum, que assim poderia ser sintetizado: uma das marcas da literatura contemporânea é, justa e paradoxalmente, a explosão mesma dos limites e das instâncias particulares da experiência literária, que agora – mais do que em outros momentos de contestação e movimento, como o período das vanguardas artísticas do início do século XX – vê seus domínios alargados e hibridizados, na medida em que passam a se consolidar, com bastante força, manifestações e gestos literários que se dão para além dos lugares e das formas de organização e intervenção convencionalmente associadas à poesia. Os suportes da coisa literária (a voz, o livro) coexistem agora com a performance, a instalação e as artes visuais; a palavra poética se espalha por outras artes e outros discursos, configurando-se a partir de outras e distintas demandas; a questão da forma, por fim, assume relevância fundamental, constituindo-se como elemento-chave para entender os novos problemas postos pela experiência literária em nossos dias. É diante desse cenário, desse universo no qual, segundo palavras do filósofo francês Jean-Luc Nancy “a própria poesia pode perfeitamente encontrar-se onde não existe propriamente poesia” (NANCY, 2005, p. 11; grifo do autor), que esta disciplina pretende atuar, procurando mapear, na produção brasileira do presente, os espaços outros de criação e inserção da literatura, bem como a emergência (na dupla acepção do termo) de novas textualidades e modos da poesia.

Programa

VER: a palavra ofertada, o gesto da escrita na arte brasileira

  • O mundo substantivo de Leonilson
  • Memória e palimpsesto em Leila Danziger
  • Nomes próprios: arquivo e promessa em Arthur Bispo do Rosário e Leila Danziger
  • A palavra em movimento: Cao Guimarães
  • Escrever com pedaços e destroços: Nuno Ramos

OUVIR: corpo, presença, performance

  • O anacronismo das palavras
  • Lira e antilira em Sons: Arranjo: Garganta, de Ricardo Domeneck
  • A escrita-ritual de Ricardo Aleixo
  • O restos da língua e da História: Curare, de Ricardo Corona

RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente

  • Fala a cidade: os arranjos e possibilidades de Alberto Pucheu
  • É preciso aprender a ficar submerso: Marjorie Perloff, Eduardo Sterzi, Alberto Pucheu
  • Da tradução como (des)apropriação: Tróiades: remix para um próximo milênio
  • O que é um autor? texto e procedimento em Angélica Freitas e Marília Garcia

 EDITAR: paisagem, superfícies e novos suportes

  • Texto/tecido, escrita/costura: Tatuagens complicadas do meu peito, de Rodrigo Lobo Damasceno
  • Totem, de André Vallias: o não-livro, a desterritorialização
  • A rede e o comum: considerações sobre Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos & Tróiades: remix para um próximo milênio

 

Cronograma 

Aula 1 – Apresentação do curso, do professor e da turma. Relação das leituras e dos métodos de avaliação.

Aula 2 – Introdução (I): o não-lugar da poesia (I) Leitura de Resistência da poesia, Jean Luc Nancy.

Aula 3 – Introdução (II): o não-lugar da poesia (II) Leitura de “Apoesia contemporânea”, Alberto Pucheu & “A literatura fora de si”, Florencia Garramuño.

Aula 4 – Introdução (III): o não-lugar da poesia (II) Leitura de “Apoesia contemporânea”, Alberto Pucheu & “A literatura fora de si”, Florencia Garramuño.

Leo

Aula 5 – VER: a arte contemporânea brasileira e a poesia (I) O mundo substantivo de José Leonilson. Leitura de São tantas as verdades, Lisette Lagnado & Truth Fiction, Adriano Pedrosa. Considerações sobre a imagem: Georges Didi-Huberman.

Aula 6 – VER: a arte contemporânea brasileira e a poesia (II) O mundo substantivo de José Leonilson. Leitura de São tantas as verdades, Lisette Lagnado & Leonilson: Truth Fiction, Adriano Pedrosa. Considerações sobre a imagem: Georges Didi-Huberman.

Aula 7 – VER: a arte contemporânea e a poesia (III) Todos os nomes: presença da palavra. Arquivo e promessa em Arthur Bispo do Rosário & Leila Danziger. Leitura de “A memória das coisas”, Maria Esther Maciel & Arthur Bispo do Rosário, Paulo Herkenhoff; Diários públicos, Leila Danziger. Poemas de Três ensaios de fala.

Aula 8 – VER: a arte contemporânea e a poesia (IV) Todos os nomes: presença da palavra. Memória e palimpsesto em Leila Danziger. Leitura de Todos os nomes da melancolia, Leila Danziger & “Leila Danziger e Eugenia Bekeris: um díptico sobre a nova arte da memória”, Márcio Seligmann-Silva.

Aula 9 – VER: a arte contemporânea e a poesia (V) A palavra em movimento: Cao Guimarães. Leitura de Histórias do não ver & CAO, Cao Guimarães. Análise de imagens e vídeos do artista. Considerações sobre Literatura expandida, Ana Pato.

Aula 10 – VER: a arte contemporânea e a poesia (VI) Escrever com pedaços e destroços: Nuno Ramos. Leitura de Morte das casas & Fruto estranho, Nuno Ramos; “Tudo fala”, Flora Sussekind e “Trajetória de Nuno Ramos”, Lorenzo Mammi.

Aula 11 – OUVIR: metamorfoses da voz (I) Modos do corpo. Leitura introdutória: Performance, recepção, leitura, Paul Zunthor.

Aula 12 – OUVIR: metamorfoses da voz (II) Modos do corpo. Leitura introdutória: “A escrita e o fora de si”, Ana Kiffer. Vídeo-performance de Ricardo Aleixo.

[Avaliação I]

Aula 13 – OUVIR: metamorfoses da voz (III) Modos do corpo. O arcaico é o contemporâneo (I) A música dissonante de Ricardo Domeneck: a memória da Europa. Poemas de Sons: arranjo: garganta, Ricardo Domeneck & A poética do ruído em Ricardo Domeneck, Bárbara Bispo Peixoto.

Domeneck

Aula 14 – OUVIR: metamorfoses da voz (IV) Modos do corpo. O arcaico é o contemporâneo (II) A música dissonante de Ricardo Domeneck: a memória da Europa. Poemas de Sons: arranjo: garganta, Ricardo Domeneck & A poética do ruído em Ricardo Domeneck, Bárbara Bispo Peixoto.

Aula 15 – OUVIR: metamorfoses da voz (V) Modos do corpo. O arcaico é o contemporâneo (III) A escrita-ritual de Ricardo Aleixo: cacos da língua e da História. Poemas de A roda do mundo, Modelos vivos & Impossível como nunca ter tido um rosto. Leitura de Ciranda de poesia: Ricardo Aleixo, Carlos Augusto Lima.

Aula 16 – OUVIR: metamorfoses da voz (VI) Modos do corpo. O arcaico é o contemporâneo (IV) Presenças ancestrais no presente: Ricardo Corona. Poemas de Curare. Leitura de Etnopoesia do milênio, Jerome Rothenberg.

Aula 17 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (I) Trânsitos e passagens. Dos ouvidos à mão (I): as canções de Fabiano Calixto e Leonardo Gandolfi. Poemas de Sanguínea & Escala Richter.

Gandolfi

Aula 18 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (II) Trânsitos e passagens. Dos ouvidos à mão (II) os arranjos de Alberto Pucheu. Poemas de A fronteira desguarnecida.

Aula 19 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (III) Trânsitos e passagens. É preciso aprender a ficar submerso (I): Marjorie Perloff, Alberto Pucheu, Eduardo Sterzi. Textos de O gênio não original, Mais cotidiano que o cotidiano que o cotidiano, Aleijão & Maus poemas.

Aula 20 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (IV) Trânsitos e passagens. É preciso aprender a ficar submerso (II): Marjorie Perloff, Alberto Pucheu, Eduardo Sterzi. Textos de O gênio não original, Mais cotidiano que o cotidiano que o cotidiano, Aleijão & Maus poemas.

[Avaliação II]

Aula 21 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (V) Trânsitos e passagens. Da tradução como (des)apropriação (I): Marília Garcia & Guilherme Gontijo Flores. Poemas de Um teste de resistores & Tróiades: remix para um próximo milênio. Leitura de “A tradução como interlúdio”, Marcelo Diniz; “A tarefa-renúncia do tradutor”, Walter Benjamin.

Aula 22 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (V) Trânsitos e passagens. Da tradução como (des)apropriação (I): Marília Garcia & Guilherme Gontijo Flores. Poemas de Um teste de resistores & Tróiades: remix para um próximo milênio. Leitura de “A tradução como interlúdio”, Marcelo Diniz; “A tarefa-renúncia do tradutor”, Walter Benjamin.

Aula 23 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (VI) Trânsitos e passagens. Os ringues polifônicos de Angélica Freitas. Leitura de Rilke Shake & Um útero é do tamanho de um punho. Considerações sobre O trabalho da citação, Antoine Compagnon & Sorties, Jean-Marie Gleize.

Aula 24 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (VII) Trânsitos e passagens. Os ringues polifônicos de Angélica Freitas. Leitura de Rilke Shake & Um útero é do tamanho de um punho. Considerações sobre O trabalho da citação, Antoine Compagnon & Sorties, Jean-Marie Gleize.

Angélica

Aula 25 – EDITAR: paisagens, superfícies, novas possibilidades (I) Leituras de Poesia contemporânea: voz, imagem, materialidades, Celia Pedrosa & Ida Alves.

Aula 26 – EDITAR: paisagens, superfícies, novas possibilidades (II) O livro eletrônico: potência e impasse. Considerações sobre Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos, Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.); Tróiades: remix para um próximo milênio, Guilherme Gontijo Flores.

Aula 27 – EDITAR: paisagens, superfícies, novas possibilidades (III) Livro por vir (I) Texto/tecido, escrever, bordar: Tatuagens complicadas do meu peito, Rodrigo Lobo & Camila Hion. Leitura: “A carne e o cosmos”, Gustavo S. Ribeiro.

Aula 28 – EDITAR: paisagens, superfícies, novas possibilidades (IV) Livro por vir (II) Totem, André Vallias: o não-livro, a desterritorialização. Leitura: “Eu, pronome oblíquo”, Alexandre Nodari.

Aula 29 – Tentativas de síntese. Considerações finais. [Avaliação III]

Aula 30 – Tentativas de síntese. Considerações finais. [Avaliação III]

 

Gleize

Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Profanações (Boitempo, 2012)

AGAMBEN, Giorgio. Ideia da prosa (Cotovia, 2005)

AGAMBEN, Giorgio. O fim do poema (Cacto, 2002)

AGUILAR, Gonzalo. Poesia concreta brasileira (Edusp, 2005)

ALEIXO, Ricardo. Impossível como não ter tido um rosto (2015)

ALEIXO, Ricardo. Modelos vivos (Crisálida, 2010)

ARBEX, Márcia (org.) Interartes (UFMG, 2010)

ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural (Ed. UNICAMP, 2011)

BENJAMIN, Walter. Escritos sobre mito e linguagem (34, 2011)

BENJAMIN, Walter. Rua de mão única (Brasiliense, 2004)

BINES, Rosana Khol. No estúdio verbal de Leila Danziger (2015)

BRIZUELA, Natália. Depois da fotografia (Rocco, 2014)

CAMPOS, Augusto. Outro (Ateliê, 2015)

CALIXTO, Fabiano & TOSTES, Pedro (org.) Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos (Os Vândalos, 2013)

CASA NOVA, Vera. Fricções: traço, olho, letra (UFMG, 2008)

CHIARA, Ana (org.) Corpos diversos (Ed. UERJ, 2015)

CICERO, Antonio (org.) Forma e sentido contemporâneo Poesia (Ed. UERJ, 2012)

CORONA, Ricardo. Curare (Iluminuras, 2011)

DAMASCENO, Rodrigo Lobo. Tatuagens complicadas do meu peito (2015)

DANZIGER, Leïla. Edifício Líbano (UERJ, 2012)

DANZIGER, Leïla. Diários públicos (Contra Capa, 2013)

DANZIGER, Leïla. Todos os nomes da melancolia (Apicuri, 2012)

DANZIGER, Leïla. Três ensaios de fala (7Letras, 2013)

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia (34, 1995)

DERRIDA, Jacques. Che cos’è la poesia? (Angelus Novus, 2003)

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha (34, 2006)

DOMENECK, Ricardo. a cadela sem Logos (Cosac, 2007)

DOMENECK, Ricardo. Sons: Arranjos: Garganta (Cosac, 2009)

FREITAS, Angélica. Rilke shake (Cosac, 2007)

FREITAS, Angélica. Um útero é do tamanho de um útero (Cosac, 2012)

FLORES, Guilherme Gontijo. Tróiades – remix para o próximo milênio (Patuá, 2015)

GARCIA, Marília. Teste de resistores (7Letras, 2014)

GARRAMUNO, Florencia. Frutos estranhos (Rocco, 2014)

GUIMARÃES, Cao. CAO (Cosac, 2015)

GUIMARÃES, Cao. Histórias do não ver (Cobogó, 2013)

GUIMARÃES, Cesar. Imagens da memória (UFMG, 2001)

HERKENHOFF, Paulo (org.) Arthur Bispo do Rosário (2012)

HIDALGO, Luciana. Arthur Bispo do Rosário: o senhor do labirinto (2011)

LAGNADO, Lisette. Leonilson: são tantas as verdades (SESI, 1999)

LEONILSON, José. Use, é lindo, eu garanto (Cosac Naify, 2006)

LIMA, Carlos Augusto. Ciranda de poesia: Ricardo Aleixo (EdUERJ, 2011)

MACÊDO, Lucíola Freitas. Ferid’alíngua: a poética de Leila Danziger (Arquivo Maaravi, 2014)

NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura & filosofia (UFSC, 2016)

NANCY, Jean-Luc. Resistência da poesia. Trad. Bruno Duarte. Lisboa: Vendaval, 2005.

NODARI, Alexandre. Eu, pronome oblíquo (Tradução em revista, 2015)

PATO, Ana. Literatura expandida. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2012.

PEDROSA, Adriano. Leonilson: Truth fiction. Rio de Janeiro: Cobogó, 2015.

PERLOFF, Marjorie. O gênio não original (UFMG, 2013)

KIFFER, Ana. Expansões contemporâneas (UFMG, 2015)

PUCHEU, Alberto. A fronteira desguarnecida (Azougue, 2007)

PUCHEU, Alberto. Apoesia contemporânea. (Azougue, 2014)

PUCHEU, Alberto. Mais cotidiano que o cotidiano (Azougue, 2013)

RAMOS, Nuno. Cujo (Iluminuras, 1993)

RAMOS, Nuno. Fruto estranho (MAM, 2010)

RAMOS, Nuno. Junco (Iluminuras, 2011)

RAMOS, Nuno. Nuno Ramos (Cobogó, 2011)

RAMOS, Nuno. Ó (Iluminuras, 2008)

RIBEIRO, G. S. A carne o cosmos (Espantalhos desamparados, 2015)

RIBEIRO, G. S. A noite explode nas cidades: três hipóteses sobre Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos (Outra Travessia, 2016)

RIBEIRO, G. S. Catálogo dos mortos: a cultura latino-americana e os inventários do horror (ALEA, 2015)

RIBEIRO, G. S. Interromper o instante, interrogar o agora: a poesia de Alberto Pucheu (Café com Letras, 2016)

ROTHENBERG, Jerome. Etnopoesia do milênio (Azougue, 2008)

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Leïla Danziger e Eugenia Bekeris: um díptico sobre a nova arte da memória. (Lua Nova, 2015)

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Palavra e imagem, memória e escritura (Argos, 2006)

SISCAR, Marcos. A soberba da poesia (Lumme, 2013)

SISCAR, Marcos. Poesia e crise (Ed. UNICAMP, 2010)

SOUZA, Alice Costa. Imagens de memória/esquecimento na contemporaneidade (EBA/UFMG, 2011)

STERZI, Eduardo. Aleijão (7Letras, 2009)

STERZI, Eduardo. Maus poemas (7Letras, 2016)

STIGGER, Verônica. Delírio de damasco (Cultura e Barbárie, 2013)

STUDART, Julia. Ciranda de poesia: Nuno Ramos (Ed. UERJ, 2014)

TASSINARI, A. & MAMMI, L. & NAVES, R. Nuno Ramos (Ática, 1997)

TROCOLI, Flávia & SOUZA, Ricardo. Nuno Ramos e a linguagem das coisas abandonadas (Remate de Males, 2015)

VALLIAS, André. Totem (Cultura e Barbárie, 2013)

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem (Cosac, 2002)

ZUNTHOR, Paul. Introdução à poesia oral (UFMG, 2011)

ZUNTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura (Cosac, 2007)

— 24/06/2016
Pensar a crítica (I) — 14/06/2016

Pensar a crítica (I)

Não é segredo para ninguém: ofereço no próximo semestre, na FaLe/UFMG, uma disciplina que procura apresentar um panorama da crítica e do ensaísmo literário no Brasil das últimas décadas. A versão inicial do programa, a ementa e algumas referências bibliográficas encontram-se aqui mesmo no blog.

Aproveitando as minhas anotações de aula, e também a partir de um convite da querida Maria João Cantinho, escrevi algumas palavras sobre o Márcio Seligmann-Silva, apresentando-o ao público português. Achei o resultado razoável e passarei a compor uma série com pequenos textos sobre os autores que aparecerão no curso. Convidarei colegas a fazer o mesmo, a fim de organizarmos, com nossos parcos recursos, um roteiro do presente, um mapa do território que, todos nós, vamos percorrendo e construindo juntos. Não haverá, creio, grande novidade: trata-se de apresentar aos alunos, de modo amplo e sintético, as linhas de força do trabalho de críticos e ensaístas que agora escrevem.

 

Os próximos textos vêm já: primeiro Wander Melo Miranda, depois Eduardo Sterzi e Maria Esther Maciel

*

Márcio I

Márcio Seligmann-Silva – a emergência do pensamento

 

 

Professor, crítico e tradutor, Márcio Seligmann-Silva é um dos pesquisadores mais destacados da cena intelectual brasileira do presente. Sua inquieta obra desdobra-se em múltiplas direções, abrangendo diferentes áreas do conhecimento e não se limitando a nenhuma delas. Atuando na grande área das Letras (e da literatura em particular), ele no entanto frequenta a crítica da cultura, a história, o discurso filosófico e a psicanálise com desenvoltura, fazendo dialogar todos esses campos do saber em seus textos e cursos universitários. Ligado, por formação e interesse, às letras e ao pensamento alemão, Seligmann-Silva tem na figura do inclassificável Walter Benjamin talvez aquele que seja o seu mais constante e profícuo interlocutor, fazendo reverberar em seus escritos muitos dos conceitos e formulações do autor de Rua de mão única. Um dos maiores divulgadores da obra benjaminiana no Brasil, Márcio Seligmann no entanto não se propôs apenas a comentar e traduzir Walter Benjamin – coisa que o fez, e bem, em diversos momentos; ele dispôs-se principalmente a pensar a partir dele, apropriando-se do seu imenso legado e tomando-o como provocação e desafio para refletir detidamente sobre o tempo presente, as contradições e urgências que o atravessam e constituem, no Brasil e no mundo.

Muitos dos seus mais conhecidos trabalhos parecem ecoar, de algum modo, a lição de Walter Benjamin, apesar de alimentarem-se também de pensadores tão diversos entre si como G. E. Lessing, Sigmund Freud, Theodor Adorno, Jacques Derrida e Shoshana Felman, entre outros. Uma breve lista dos seus temas mais recorrentes vai revelar isso, o dado benjaminiano e a busca de sua reelaboração original e desestabilizadora: o papel central do primeiro Romantismo no pensamento moderno, sua atualidade mesma; o lugar da tradução – e a proposição de uma prática ativa e criativa da tradução – entre as tarefas fundamentais da atividade reflexiva, espécie de condição e ponto de passagem do pensamento; a reconfiguração epistemológica deflagrada pelas catástrofes modernas, de modo especial as Grandes Guerras do século XX, que abalaram não só a tradição do humanismo europeu quanto também certas noções gerais que se consideravam estáveis no campo da linguagem, da ética e da epistemologia; a busca e a decifração das novas formas artísticas, por fim, que fossem capazes de responder aos novos contextos e às novas demandas estéticas e políticas que surgiam e se impunham com o novo desenho de forças do mundo do pós-guerra e dos traumas políticos do século (o testemunho, os antimonumentos, o trabalho em torno das ruínas e dos arquivos). Como se vê, a cada passo e passagem do trabalho de Márcio Seligmann-Silva, a construção de um caminho crítico particular e autônomo se deu a partir do jogo consciente, e bastante produtivo, com o vasto universo benjaminiano, universo que vem revelando, ainda uma vez, a sua inesgotabilidade e atualização.Marcio II

A emergência do pensar que caracteriza o trabalho do crítico tem, nesse sentido, rebatimento nas circunstâncias históricas que o cercam e na matriz teórica principal que a anima. O caráter urgente e necessário da reflexão crítica – que se dá sempre numa combinação entre rememoração do passado e a proposição de novos conceitos e novas práticas políticas e estéticas para o presente – vai assim marcar decisivamente o percurso intelectual que se procura delinear, na medida em que tudo nele parece ser marcado pela dupla injunção que indica, inexoravelmente, que só é possível conhecer e transformar o presente se se é capaz de trazer viva a memória da catástrofe passada, catástrofe que, conforme a leitura dos tempos atuais parece confirmar a cada instante, não cessou jamais, reproduzindo-se sob diferentes formas na vida cotidiana dos tempos que correm. E é nesse sentido que se pode compreender a passagem operada pelo autor ao longo da trajetória que foi construindo como pesquisador e ensaísta: advindo da leitura (levada a cabo no volume Ler o livro do mundo (Iluminuras, 1999) do Romantismo alemão e do estabelecimento, a partir dele e também de Walter Benjamin, de um conceito de crítica que fosse fundamentalmente hermenêutico e negativo, isto é, que estivesse fundado na tarefa infinita e desestabilizadora da ‘leitura do mundo’ (e não o seu comentário), espaço no qual a prática reflexiva ocuparia o terreno antes dedicado à celebração de autores e à repetição de obras e gestos tradicionais, Márcio Seligmann-Silva pôde chegar, ao longo do tempo, à prática de um ensaísmo marcado por temas como a memória e o trauma, centrais para a interpretação que faz da cultura contemporânea. Para ele, a tarefa da crítica, como se viu, só pode se realizar plenamente como negatividade, o que indica a percepção – por parte do crítico da arte, da cultura e das formas sociais – das fraturas, das contradições e silêncios que operam nesse mesmo tecido cultural e social. Daí o autor ter chegado à questão da violência e sua relação com a linguagem e a história, os temas que dominarão, sob múltiplos aspectos, sua produção posterior.

Um dos operadores conceituais mais importantes para a obra de Seligmann-Silva é o testemunho, essa modalidade político-textual e possibilidade narrativa que ganha força com a Shoah e os relatos dos sobreviventes da barbárie nazista. O pesquisador não só tratou de estudar e divulgar o tema (até então pouco explorado) no contexto brasileiro, quanto pôs-se a reelabora-lo, pensando-o à luz das condições históricas do país – os traumas, por exemplo, decorrentes da última ditadura – e da sua produção literária moderna. Se na questão do testemunho vão se articular, como é sabido, os limites da linguagem e o dever do relato, num emaranhado de referências que ao mesmo tempo explicita os abalos que a própria noção de representação irá sofrer, além de apresentar novas perspectivas éticas e estéticas para a questão, Márcio Seligmann-Silva vai acrescentar a esse universo intrincado de ideias uma reflexão extensa sobre a Teoria do Sublime, afirmando que a falência da linguagem experimentada por aqueles que procuraram narrar o horror dos campos da morte e de outras experiências-limite da Era dos Extremos (para falar aqui com Eric Hobsbawn) pode ser aproximada, produtivamente, do pensamento sobre o indizível e a recuperação – laica e estética – do sagrado no mundo e na arte pós-Iluminista. Em livros como História Memória Literatura (Ed. UNICAMP, 2003) e O local da diferença (34, 2005) o ensaísta vai propor tal dimensão crítica, além de explorar também um outro viés do conceito de testemunho: para ele, além da prática em si dessa modalidade textual, ligada às circunstâncias particulares das catástrofes políticas do século XX (a Shoah, os Gulag na União Soviética, a destruição das comunidades tradicionais indígenas das Américas, as ditaduras do cone Sul), seria possível considerar também que obras literárias francamente ficcionais podem portar igualmente uma dimensão do testemunho, desde que estejam relacionadas à violência e ao horror. É o que ele vai chamar de ‘teor testemunhal’, numa tentativa bastante pessoal (e polêmica, para alguns) de aprofundamento e readaptação conceitual, num movimento que alarga o horizonte dos estudos do testemunho ao incorporar a eles parte significativa da literatura brasileira moderna, localizando em obras como o romance Grande sertão: veredas, por exemplo, elementos que permitem pensar esse imenso relato de barbárie e confissão sobre o Brasil arcaico e profundo como um texto que apresenta características do texto testemunhal.

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As formas contemporâneas da arte e dos ritos sociais da memória têm interessado também ao crítico brasileiro, que vêm procurando identificar e dimensionar o papel que novos artistas e escritores cumprem no processo de renovação das artes da memória num mundo pós-catástrofe. Estudando, nesse sentido, diferentes mídias e discursos, Márcio Seligmann-Silva procura acompanhar em seus textos a produção contemporânea em torno do tema, bem como os movimentos coletivos e institucionais que, a partir dos temas da memória, da justiça e da reparação histórica, vêm ampliando a visibilidade política dos crimes e violências do passado. Os restos da última ditadura brasileira, bem como a atuação da Comissão Nacional da Verdade foram – e continuam sendo – objeto de seus textos e conferências. Vale destacar também, por fim, o cuidado com que o ensaísta vem lidando com a obra de artistas plásticos brasileiros que têm nas tragédias pessoais e coletivas, na Shoah e numa espécie de política da memória o seu foco de criação e zona de interesse. O caso mais relevante parece ser o da artista carioca Leïla Danziger, cujo trabalho com nomes próprios, arquivos pessoais (do seu próprio pai, de imigrantes judeus que aportaram no Brasil no século XX) e fragmentos materiais do passado vem construindo uma forte e delicada metáfora visual da recordação, que funde em suas telas, objetos e instalações a questão do testemunho, as múltiplas formas da memória, a impossibilidade da representação transfiguradora da catástrofe (uma vez que a artista recusa a mimese e prefere apresentar, em suas obras, os restos mesmos, a presença física, do passado e da morte) e o desvio metonímico, que repele as formas de totalidade e prefere a incompletude e a estética do fragmento. Como se vê, na leitura dedicada que Márcio Seligmann-Silva faz das obras dessa artista, estão projetados e em mistura todos os temas que lhe são caros, temas que revelam, por sua vez, a emergência constante e sem fim do passado, bem como a urgência do pensamento crítico que localiza no presente as fissuras, as lacunas e os não-ditos que se impõem como responsabilidade (como endereçamento e dever de resposta) ao intelectual interessado em conhecer e transformar o seu próprio tempo.

Abralic, 2016, Rio — 10/06/2016

Abralic, 2016, Rio

Amigas e amigos,

saiu a programação do Simpósio da ABRALIC que eu, Tiago Pinheiro, Nicola Gavioli e Juliana Bratfisch organizamos. A conversa vai girar, quase como sempre, sobre poesia contemporânea. Aos que estiverem no Rio entre 19 e 23 de setembro, e talvez um pouco antes e um pouco depois, divulgo, convido e prometo:

 

Simpósio 49

Poesia contemporânea: reconfigurações do sensível no Brasil e na América Latina

Ju

Mesa I

O retorno do real

[coordenação: Gustavo Silveira Ribeiro]

  1. Três disparos em Sarajevo: poesia, fotografia e violência em Claudia Roquette-Pinto – Aulus Mandagará Martins (UFPEL)
  2. O signo espesso (na poesia de Tarso de Melo) – Renan Nuernberger (USP)
  3. 4 poemas contemporâneos atravessam a rua sem cuidado ou distração como atitude heroica na grande cidade – Rafael Zacca (PUC-Rio)
  4. De um outro mundo: poéticas imigrantes na América Latina – Luciano Ramos Mendes (UFSC)
  5. Eclipse e despedida: representações da doença de Alzheimer na cultura brasileira contemporânea – Nicola Gavioli (FIU)

Tarso

Mesa II

Poesia, não-poesia e além

[coordenação: Tiago Guilherme Pinheiro]

Tiago

  1. Os (des)limites da poesia: expansão e passagem no Brasil contemporâneo – Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG)
  2. Será que a poesia brasileira contemporânea realmente prepara o terreno para abandonar o corpo da poesia, apesar de seus afetos? – Juliana Gonçalves Bratfisch (UNICAMP)
  3. Composto de objetos litigiosos – Masé Lemos (UNIRIO)
  4. O pixo e a invenção da escrita: notas sobre poéticas contemporâneas de muro, página e tela em Belo Horizonte – Miguel de Ávila Duarte (UFMG)
  5. A palavra dentro e fora de si na poética de Arnaldo Antunes: uma leitura de n. d. a. – Glauber Mizumoto Pimentel (UERJ)

BH

 

Mesa III

Nicola

Novos modos do sensível e do estranhamento

[coordenação: Nicola Gavioli] 

  1. Cálculos nos intestinos da prosa: a poesia como corpo estranho em Paulo Henriques Britto – Eduardo Horta Nassif Veras (UNICAMP)
  2. Música ambiente: a transmissão como o desapercebido em Walter Gam – Tiago Guilherme Pinheiro (UNICAMP)
  3. A imaginação poética no mundo de hoje – Cristina Henrique da Costa (UNICAMP)
  4. A linguagem-corpo da voz na poesia brasileira contemporânea – Susana Busato (UNESP – Rio Preto)
  5. Experiência comum e performance oral como cura e resistência – Alemar Rena (UFSB)

PHB

 

Mesa IV

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A vertigem da história: passado e presente

[coordenação: Juliana Gonçalves Bratfisch]

  1. Olhinhos de gato – reflexividade e autorreferência na obra autobiográfica de Cecília Meireles – Aline Magalhães Pinto (PUC-Rio)
  2. A mesa de Waly: para ler o que não está escrito – Roberto Said (UFMG)
  3. A superfície do segredo: a democracia e a metáfora num poema de Leonardo Fróes – Luiz Guilherme Barbosa (UFRJ)
  4. Do virtual ao atual: a fábrica do poema – Rafael Lovisi (UFMG)
  5. A construção metafórica em Micheliny Verunschk: uma leitura de suas imagens – Érica Alves Rossi (UFMS – Três Lagoas)

 

 

LeilaDanziger