TODA A ORFANDADE DO MUNDO

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Caminhos da crítica no presente — 03/08/2016

Caminhos da crítica no presente

 

Esther

Ementa

O curso propõe investigar algumas das tendências fundamentais da crítica literária e cultural brasileira dos últimos anos, procurando compreender, ao mesmo tempo, a sua poética particular e os pressupostos teóricos que servem de base para o gesto de apropriação, para o salto no escuro que pretendem executar. A partir da leitura de autores, ensaios e trechos selecionados, o traçado de algumas linhas de força irá se esboçar: a) a crítica biográfica; b) a leitura filosoficamente informada da literatura brasileira; c) a proposição de novas temporalidades e eixos historiográficos; d) os percursos crítico-criativos; e) a irrupção da biopolítica e da subalternidade; f) as articulações entre cultura e barbárie no Brasil.

Programa

  1. Repropor o tempo
  • “O tempo preocupado: para uma leitura genealógica das figuras literárias” – Ettore Finazzi-Agrò (Entretempos)
  • “Maranhão-Manhattan: uma ponte entre nós” – Marília Librandi Rocha (Maranhão-Manhattan)
  • “A origem em ausência: a figuração do índio na cultura brasileira” – Ettore Finazzi-Agrò (Entretempos)

 

2. Escrever a violência

  • “Tróia de Taipa: Canudos e os irracionais” – Francisco Foot Hardman (Morte e progresso)
  • “Literatura e cegueira” – Jaime Ginzburg (Crítica em tempos de violência)
  • “Imagens precárias: inscrições tênues da violência ditatorial no Brasil”, Márcio Seligmann-Silva

 

3. Poesia e pensamento

  • “A cisma da poesia brasileira” – Marcos Siscar (Poesia e crise)
  • “O discurso da crise e a democracia por vir”, Marcos Siscar (Poesia e crise)
  • “Apoesia contemporânea” – Alberto Pucheu (Apoesia contemporânea)
  • “Terra devastada: persistências de uma imagem” – Eduardo Sterzi (Remate de Males)
  • “O poema em tempos de barbárie”, Vera Lins (O poema em tempos de barbárie e outros ensaios)

 

4. O jogo da diferença

  • “Além da literatura” – Marcos Natali (Literatura e sociedade)
  • “Questões de herança: Do amor à literatura (e ao escravo)” – Marcos Natali (Literafro)
  • “O sujeito carcerário” – João Camillo Penna (Escritos da sobrevivência)
  • “O espelho da dependência” – João Camillo Penna (Comunidades sem fim)
  • “Jagunços, topologia, tipologia” – João Camillo Penna (Modos da margem)

 

5. Campo dos possíveis

  • “Pelo colorido, para além do cinzento” – Alberto Pucheu (Pelo colorido, para além do cinzento)
  • “Poéticas do animal” – Maria Esther Maciel (Pensar/escrever: o animal)
  • “A Gaia ciência” – José Miguel Wisnik (Sem receita: ensaios e canções)
  • “Um mundo de gente” – Eduardo Viveiros de Castro & Débora Danowski (Há mundos por vir?)
  • “Limitar o limite: modos de subsistência”, Alexandre Nodari
  • “Biografia literária: duas tradições”, Antonio Marcos Pereira (Outra Travessia)
  • ““Reflexões sobre a metodologia de pesquisa nos estudos literários”, Fábio Akcelrud Durão

 

Cronograma 

Aula 1 – Apresentação do curso, do professor e da turma. Relação das leituras e dos métodos de avaliação.

Aula 2 – Introdução. A questão do ensaio: escrever a leitura (I) Considerações sobre O rumor da língua (Parte I), Roland Barthes. 

Aula 3 – Introdução. A questão do ensaio: escrever a leitura (II) Considerações sobre O gênero intranquilo, João Barrento.

Aula 4 – Introdução. A questão do ensaio: escrever a leitura (III) Considerações sobre Roland Barthes e João Barrento.

Aula 5 – Introdução. A questão do ensaio: escrever a leitura (IV) O ensaísmo no Brasil: hipóteses. Considerações sobre O estilo tropical, Roberto Ventura & A crítica literária na Universidade brasileira, Rachel Esteves Lima.

Aula 6 – Repropor o tempo (I) Leitura de “A origem em ausência: a figuração do índio na cultura brasileira” – Ettore Finazzi-Agrò. Leitura de apoio: “Os involuntários da pátria”, Eduardo Viveiros de Castro 

Aula 7 – Repropor o tempo (II) Leitura de “Maranhão-Manhattan: uma ponte entre nós”, Marília Librandi-Rocha. Leitura de apoio: Revisão de Sousândrade, Haroldo & Augusto de Campos.

Aula 8 – Escrever a violência (I) Leitura de “Troia de taipa: Canudos e os irracionais”. Leitura de apoio: “Teoria do conhecimento, teoria do progresso”, Walter Benjamin (Passagens)

Foot

Aula 9 – Escrever a violência (II) Leitura de “Literatura e cegueira”, Jaime Ginzburg. Leitura de apoio: Minima moralia, Theodor Adorno.

Aula 10 – Escrever a violência (III) Leitura de “Imagens precárias: inscrições tênues da violência ditatorial no Brasil”, Márcio Seligmann-Silva. Leitura de apoio: “Pequena história da fotografia”, Walter Benjamin.

Aula 11 – Poesia e pensamento (I) Leitura de “O discurso da crise e a democracia por vir”, Marcos Siscar. Leituras de apoio: A soberba da poesia, Marcos Siscar & Che cos’è la poesia?, Jacques Derrida.

Aula 12 – Poesia e pensamento (II) Leitura de “Apoesia contemporânea”, Alberto Pucheu. Leitura de apoio: O que é o contemporâneo?, Giorgio Agamben.

Aula 13 – Poesia e pensamento (III) Leitura de “Terra devastada: persistências de uma imagem”, Eduardo Sterzi. Leitura de apoio: A imagem sobrevivente, Georges Didi-Huberman.

Aula 14 – Poesia e pensamento (IV) Leitura de “O poema em tempos de barbárie”, Vera Lins. Leitura de apoio: O meridiano, Paul Celan.

Jaime

Aula 15 – Poesia e pensamento (V) Leitura de “A cisma da poesia brasileira”, Marcos Siscar. Leitura de apoio: Poesia e crítica de poesia hoje: heterogeneidade, crise, expansão”, Celia Pedrosa.

Aula 16 – O jogo da diferença (I) Leitura de “Além da literatura”, Marcos Natali. Leitura de apoio: Essa estranha instituição chamada literatura, Jacques Derrida.

Aula 17 – O jogo da diferença (II) Leitura de “Questões de herança: do amor à literatura (e ao escravo)”, Marcos Natali. Leitura de apoio: Pode o subalterno falar?, Gayatri Spivak.

Aula 18 – O jogo da diferença (III) Leitura de “O sujeito carcerário”, João Camillo Penna. Leitura de apoio: Pode o subalterno falar?, Gayatri Spivak.

Aula 19 – O jogo da diferença (IV) Leitura de “O espelho da dependência”, João Camillo Penna. Leitura de apoio: Homo sacer: o poder soberano e a vida nua, Giorgio Agamben.

Aula 20 – O jogo da diferença (V) Leitura de “Jagunços: topologia, tipologia”, João Camillo Penna. Leitura de apoio: Homo sacer: o poder soberano e a vida nua, Giorgio Agamben.

Aula 21 – Experiências, espessuras (I) Leitura de “Pelo colorido, para além do cinzento”, Alberto Pucheu. Leitura de apoio: Aula, Roland Barthes.

Aula 22 – Experiências, espessuras (II) Leitura de “Limitar o limite: modos de subsistência”, Alexandre Nodari. Leitura de apoio: Manifesto antropófago, Oswald de Andrade.

Aula 23 – Experiências, espessuras (III) Leitura de “Poéticas do animal”, Maria Esther Maciel. Leitura de apoio: “Devir intenso, devir animal, devir imperceptível”, Gilles Deleuze & Felix Guattari.

Aula 24 – Experiências, espessuras (IV) Leitura de “Biografia literária: duas tradições”, Antonio Marcos Pereira. Leitura de apoio: Janelas indiscretas, Eneida Maria de Souza.

Aula 25 – Experiências, espessuras (V) Leitura de “Um mundo de gente”, Eduardo Viveiros de Castro & Débora Danowski. Leitura de apoio: A sociedade contra o Estado, Pierre Clastres.

Antropoceno

Aula 26 – Experiências, espessuras (VI) Leitura de “A Gaia ciência”, José Miguel Wisnik.

Aula 27 – Experiências, espessuras (VII) Leitura de “Reflexões sobre a metodologia de pesquisa nos estudos literários”, Fábio Akcelrud Durão.

Aula 28 – Orientação para os trabalhos finais.

Aula 29 – Orientação para os trabalhos finais.

Aula 30 – Avaliação geral do curso. Tentativas de síntese.

 

Marília 

 

Bibliografia 

ADORNO, Theodor W. Ensaio como forma. In: Notas sobre literatura I (34, 2003)

AVELAR, Idelber. Cânone literário e valor estético (Revista da ABRALIC, 2010)

BAPTISTA, Abel Barros. De espécie complicada (Angelus Novus, 2010)

BAPTISTA, Abel Barros. O livro agreste (Ed. UNICAMP, 2005)

BENJAMIN, Walter. Passagens (Imprensa Oficial/UFMG, 2006)

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização (Companhia das Letras, 1992)

CAMPOS, Haroldo. Revisão de Sousândrade (Perspectiva, 2004)

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira (Ouro sobre Azul, 2005)

CANDIDO, Antonio. Vários escritos (Ouro sobre Azul, 2006)

DERRIDA, Jacques. De que amanhã… (Jorge Zahar, 2004)

DERRIDA, Jacques. Essa estranha instituição chamada literatura (Ed. UFMG, 2014)

DERRIDA, Jacques. La loi du genre. In: Parages (Galilée, 1986)

DIDI-HUBERMANN, Georges. A imagem sobrevivente (Contraponto, 2012)

DIDI-HUBERMANN, Georges. A sobrevivência dos vaga-lumes (Ed. UFMG, 2010)

FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Entretempos (UNESP, 2013)

FOOT HARDMAN, Francisco. A vingança da Hileia (UNESP, 2009)

FOOT HARDMAN, Francisco & GINZBURG, J. & SELIGMANN-SILVA, M. (org.) Escritas da violência [2 vol.] (7Letras, 2012)

FOOT HARDMAN, Francisco. Morte e progresso (UNESP, 2001)

FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a história (Graal, 2012)

GARRAMUNO, Florencia. Frutos estranhos (Rocco, 2014)

GINZBURG, Jaime. Crítica em tempos de violência (Edusp, 2012)

LIMA, Luiz Costa. Frestas. A teorização em um país periférico (Contraponto, 2013)

LIMA, Luiz Costa. Sebastião Uchoa Leite: resposta ao agora (Dobra, 2012)

MACIEL, Emílio. Fundamento-abismo: Machado de Assis na Formação da literatura brasileira (O Eixo e a Roda, 2011)

MACIEL, Maria Esther. Literatura e animalidade (Civilização Brasileira, 2016)

MACIEL, Maria Esther. Pensar/escrever: o animal – ensaios de zoopoética e biopolítica (Ed. UFSC, 2011)

MIRANDA, Wander Melo. Corpos escritos (Edusp/UFMG, 1992)

MIRANDA, Wander Melo. Nações literárias (Ateliê, 2010)

NATALI, Marcos. Além da literatura (Literatura e Sociedade, 2006)

NATALI, Marcos & SISCAR, Marcos (org.) Margens da democracia (Ed. UNICAMP, 2016)

NATALI, Marcos. O sacrifício da literatura (ALEA, 2013)

NATALI, Marcos. Questões de herança: Do amor à literatura (e ao escravo) (Literafro, 2013)

NODARI, Alexandre. Limitar o limite: modos de subsistência (2014)

PENNA, João Camillo. Comunidades sem fim (Circuito, 2015)

PENNA, João Camillo. Escritos da sobrevivência (7Letras, 2013)

PENNA, João Camillo (org.) Modos da margem (Aeroplano, 2015)

PEDROSA, Celia (org.) Subjetividades em devir (7Letras, 2008)

PEREIRA, Antonio Marcos. Biografia literária: duas tradições. In: Outra Travessia (2013)

PUCHEU, Alberto. Apoesia contemporânea (Azougue, 2014)

PUCHEU, Alberto. Pelo colorido, para além do cinzento (Azougue, 2007)

ROCHA, João Cezar Castro. Crítica literária: em busca do tempo perdido? (Civilização Brasileira, 2011)

ROCHA, Marília Librandi. Maranhão-Manhattan (7Letras, 2009)

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos (Rocco, 2000)

SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra (Rocco, 2002)

SANTIAGO, Silviano. Ora direis, puxar conversa! (Ed. UFMG, 2005)

SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Cena do crime (José Olympio, 2013)

SCHWARZ, Roberto. Martinha versus Lucrécia (Companhia das Letras, 2012)

SCHWARZ, Roberto. O pai de família e outros ensaios (Paz e Terra, 1992)

SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.) Catástrofe e representação (Escuta, 2003)

SELIGMANN-SILVA, Márcio. História Memória Literatura (Ed. UNICAMP, 2003)

SISCAR, Marcos. A soberba da poesia (Lumme, 2013)

SISCAR, Marcos. Poesia e crise (Ed. UNICAMP, 2010)

SOUZA, Eneida Maria. Janelas indiscretas (Ed. UFMG, 2011)

SOUZA, Eneida Maria. Pedro Nava, o risco da memória (Funalfa, 2004)

SOUZA, Eneida Maria. Tempo de pós-crítica (Veredas & Cenários, 2007)

STERZI, Eduardo. A prova dos nove: alguma poesia moderna e a tarefa da alegria (Lumme, 2008)

STERZI, Eduardo. Cadáveres, vaga-lumes, fogos-fátuos (Celeuma, 2013)

STERZI, Eduardo. O reino e o deserto: a inquietante medievalidade do moderno (Boletim de Pesquisa NELIC, 2012)

STERZI, Eduardo. Terra devasta: persistências de uma imagem (Remate de Males, 2014)

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem (Cosac, 2002)

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo & DANOWSKI, Débora. Há mundos por vir? (Cultura e Barbárie, 2014)

WISNIK, José Miguel. Sem receita: ensaios e canções (PubliFolha, 2004)

WISNIK, José Miguel. Veneno remédio (Companhia das Letras, 2008)

A poesia fora de si: outros espaços e novas textualidades no Brasil — 22/07/2016

A poesia fora de si: outros espaços e novas textualidades no Brasil

Ementa

Série crescente de reflexões no campo teórico do presente vem tentando construir uma elaboração conceitual demorada em torno ao fenômeno de transformação e questionamento dos sentidos e dos limites da noção tradicional de literatura, e da poesia em particular, que nessas novas abordagens e tentativas de compreensão tem recebido nomes como “literatura expandida” (PATO, 2012), “escrita fora de si” (KIFFER, 2014) e “Literatura posautónoma” (LUDMER, 2007), para citar apenas alguns exemplos. Todos esses conceitos apontam para um ponto em comum, que assim poderia ser sintetizado: uma das marcas da literatura contemporânea é, justa e paradoxalmente, a explosão mesma dos limites e das instâncias particulares da experiência literária, que agora – mais do que em outros momentos de contestação e movimento, como o período das vanguardas artísticas do início do século XX – vê seus domínios alargados e hibridizados, na medida em que passam a se consolidar, com bastante força, manifestações e gestos literários que se dão para além dos lugares e das formas de organização e intervenção convencionalmente associadas à poesia. Os suportes da coisa literária (a voz, o livro) coexistem agora com a performance, a instalação e as artes visuais; a palavra poética se espalha por outras artes e outros discursos, configurando-se a partir de outras e distintas demandas; a questão da forma, por fim, assume relevância fundamental, constituindo-se como elemento-chave para entender os novos problemas postos pela experiência literária em nossos dias. É diante desse cenário, desse universo no qual, segundo palavras do filósofo francês Jean-Luc Nancy “a própria poesia pode perfeitamente encontrar-se onde não existe propriamente poesia” (NANCY, 2005, p. 11; grifo do autor), que esta disciplina pretende atuar, procurando mapear, na produção brasileira do presente, os espaços outros de criação e inserção da literatura, bem como a emergência (na dupla acepção do termo) de novas textualidades e modos da poesia.

Programa

VER: a palavra ofertada, o gesto da escrita na arte brasileira

  • O mundo substantivo de Leonilson
  • Memória e palimpsesto em Leila Danziger
  • Nomes próprios: arquivo e promessa em Arthur Bispo do Rosário e Leila Danziger
  • A palavra em movimento: Cao Guimarães
  • Escrever com pedaços e destroços: Nuno Ramos

OUVIR: corpo, presença, performance

  • O anacronismo das palavras
  • Lira e antilira em Sons: Arranjo: Garganta, de Ricardo Domeneck
  • A escrita-ritual de Ricardo Aleixo
  • O restos da língua e da História: Curare, de Ricardo Corona

RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente

  • Fala a cidade: os arranjos e possibilidades de Alberto Pucheu
  • É preciso aprender a ficar submerso: Marjorie Perloff, Eduardo Sterzi, Alberto Pucheu
  • Da tradução como (des)apropriação: Tróiades: remix para um próximo milênio
  • O que é um autor? texto e procedimento em Angélica Freitas e Marília Garcia

 EDITAR: paisagem, superfícies e novos suportes

  • Texto/tecido, escrita/costura: Tatuagens complicadas do meu peito, de Rodrigo Lobo Damasceno
  • Totem, de André Vallias: o não-livro, a desterritorialização
  • A rede e o comum: considerações sobre Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos & Tróiades: remix para um próximo milênio

 

Cronograma 

Aula 1 – Apresentação do curso, do professor e da turma. Relação das leituras e dos métodos de avaliação.

Aula 2 – Introdução (I): o não-lugar da poesia (I) Leitura de Resistência da poesia, Jean Luc Nancy.

Aula 3 – Introdução (II): o não-lugar da poesia (II) Leitura de “Apoesia contemporânea”, Alberto Pucheu & “A literatura fora de si”, Florencia Garramuño.

Aula 4 – Introdução (III): o não-lugar da poesia (II) Leitura de “Apoesia contemporânea”, Alberto Pucheu & “A literatura fora de si”, Florencia Garramuño.

Leo

Aula 5 – VER: a arte contemporânea brasileira e a poesia (I) O mundo substantivo de José Leonilson. Leitura de São tantas as verdades, Lisette Lagnado & Truth Fiction, Adriano Pedrosa. Considerações sobre a imagem: Georges Didi-Huberman.

Aula 6 – VER: a arte contemporânea brasileira e a poesia (II) O mundo substantivo de José Leonilson. Leitura de São tantas as verdades, Lisette Lagnado & Leonilson: Truth Fiction, Adriano Pedrosa. Considerações sobre a imagem: Georges Didi-Huberman.

Aula 7 – VER: a arte contemporânea e a poesia (III) Todos os nomes: presença da palavra. Arquivo e promessa em Arthur Bispo do Rosário & Leila Danziger. Leitura de “A memória das coisas”, Maria Esther Maciel & Arthur Bispo do Rosário, Paulo Herkenhoff; Diários públicos, Leila Danziger. Poemas de Três ensaios de fala.

Aula 8 – VER: a arte contemporânea e a poesia (IV) Todos os nomes: presença da palavra. Memória e palimpsesto em Leila Danziger. Leitura de Todos os nomes da melancolia, Leila Danziger & “Leila Danziger e Eugenia Bekeris: um díptico sobre a nova arte da memória”, Márcio Seligmann-Silva.

Aula 9 – VER: a arte contemporânea e a poesia (V) A palavra em movimento: Cao Guimarães. Leitura de Histórias do não ver & CAO, Cao Guimarães. Análise de imagens e vídeos do artista. Considerações sobre Literatura expandida, Ana Pato.

Aula 10 – VER: a arte contemporânea e a poesia (VI) Escrever com pedaços e destroços: Nuno Ramos. Leitura de Morte das casas & Fruto estranho, Nuno Ramos; “Tudo fala”, Flora Sussekind e “Trajetória de Nuno Ramos”, Lorenzo Mammi.

Aula 11 – OUVIR: metamorfoses da voz (I) Modos do corpo. Leitura introdutória: Performance, recepção, leitura, Paul Zunthor.

Aula 12 – OUVIR: metamorfoses da voz (II) Modos do corpo. Leitura introdutória: “A escrita e o fora de si”, Ana Kiffer. Vídeo-performance de Ricardo Aleixo.

[Avaliação I]

Aula 13 – OUVIR: metamorfoses da voz (III) Modos do corpo. O arcaico é o contemporâneo (I) A música dissonante de Ricardo Domeneck: a memória da Europa. Poemas de Sons: arranjo: garganta, Ricardo Domeneck & A poética do ruído em Ricardo Domeneck, Bárbara Bispo Peixoto.

Domeneck

Aula 14 – OUVIR: metamorfoses da voz (IV) Modos do corpo. O arcaico é o contemporâneo (II) A música dissonante de Ricardo Domeneck: a memória da Europa. Poemas de Sons: arranjo: garganta, Ricardo Domeneck & A poética do ruído em Ricardo Domeneck, Bárbara Bispo Peixoto.

Aula 15 – OUVIR: metamorfoses da voz (V) Modos do corpo. O arcaico é o contemporâneo (III) A escrita-ritual de Ricardo Aleixo: cacos da língua e da História. Poemas de A roda do mundo, Modelos vivos & Impossível como nunca ter tido um rosto. Leitura de Ciranda de poesia: Ricardo Aleixo, Carlos Augusto Lima.

Aula 16 – OUVIR: metamorfoses da voz (VI) Modos do corpo. O arcaico é o contemporâneo (IV) Presenças ancestrais no presente: Ricardo Corona. Poemas de Curare. Leitura de Etnopoesia do milênio, Jerome Rothenberg.

Aula 17 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (I) Trânsitos e passagens. Dos ouvidos à mão (I): as canções de Fabiano Calixto e Leonardo Gandolfi. Poemas de Sanguínea & Escala Richter.

Gandolfi

Aula 18 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (II) Trânsitos e passagens. Dos ouvidos à mão (II) os arranjos de Alberto Pucheu. Poemas de A fronteira desguarnecida.

Aula 19 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (III) Trânsitos e passagens. É preciso aprender a ficar submerso (I): Marjorie Perloff, Alberto Pucheu, Eduardo Sterzi. Textos de O gênio não original, Mais cotidiano que o cotidiano que o cotidiano, Aleijão & Maus poemas.

Aula 20 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (IV) Trânsitos e passagens. É preciso aprender a ficar submerso (II): Marjorie Perloff, Alberto Pucheu, Eduardo Sterzi. Textos de O gênio não original, Mais cotidiano que o cotidiano que o cotidiano, Aleijão & Maus poemas.

[Avaliação II]

Aula 21 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (V) Trânsitos e passagens. Da tradução como (des)apropriação (I): Marília Garcia & Guilherme Gontijo Flores. Poemas de Um teste de resistores & Tróiades: remix para um próximo milênio. Leitura de “A tradução como interlúdio”, Marcelo Diniz; “A tarefa-renúncia do tradutor”, Walter Benjamin.

Aula 22 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (V) Trânsitos e passagens. Da tradução como (des)apropriação (I): Marília Garcia & Guilherme Gontijo Flores. Poemas de Um teste de resistores & Tróiades: remix para um próximo milênio. Leitura de “A tradução como interlúdio”, Marcelo Diniz; “A tarefa-renúncia do tradutor”, Walter Benjamin.

Aula 23 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (VI) Trânsitos e passagens. Os ringues polifônicos de Angélica Freitas. Leitura de Rilke Shake & Um útero é do tamanho de um punho. Considerações sobre O trabalho da citação, Antoine Compagnon & Sorties, Jean-Marie Gleize.

Aula 24 – RECORTAR: o próprio e o alheio na poesia do presente (VII) Trânsitos e passagens. Os ringues polifônicos de Angélica Freitas. Leitura de Rilke Shake & Um útero é do tamanho de um punho. Considerações sobre O trabalho da citação, Antoine Compagnon & Sorties, Jean-Marie Gleize.

Angélica

Aula 25 – EDITAR: paisagens, superfícies, novas possibilidades (I) Leituras de Poesia contemporânea: voz, imagem, materialidades, Celia Pedrosa & Ida Alves.

Aula 26 – EDITAR: paisagens, superfícies, novas possibilidades (II) O livro eletrônico: potência e impasse. Considerações sobre Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos, Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.); Tróiades: remix para um próximo milênio, Guilherme Gontijo Flores.

Aula 27 – EDITAR: paisagens, superfícies, novas possibilidades (III) Livro por vir (I) Texto/tecido, escrever, bordar: Tatuagens complicadas do meu peito, Rodrigo Lobo & Camila Hion. Leitura: “A carne e o cosmos”, Gustavo S. Ribeiro.

Aula 28 – EDITAR: paisagens, superfícies, novas possibilidades (IV) Livro por vir (II) Totem, André Vallias: o não-livro, a desterritorialização. Leitura: “Eu, pronome oblíquo”, Alexandre Nodari.

Aula 29 – Tentativas de síntese. Considerações finais. [Avaliação III]

Aula 30 – Tentativas de síntese. Considerações finais. [Avaliação III]

 

Gleize

Bibliografia

AGAMBEN, Giorgio. Profanações (Boitempo, 2012)

AGAMBEN, Giorgio. Ideia da prosa (Cotovia, 2005)

AGAMBEN, Giorgio. O fim do poema (Cacto, 2002)

AGUILAR, Gonzalo. Poesia concreta brasileira (Edusp, 2005)

ALEIXO, Ricardo. Impossível como não ter tido um rosto (2015)

ALEIXO, Ricardo. Modelos vivos (Crisálida, 2010)

ARBEX, Márcia (org.) Interartes (UFMG, 2010)

ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural (Ed. UNICAMP, 2011)

BENJAMIN, Walter. Escritos sobre mito e linguagem (34, 2011)

BENJAMIN, Walter. Rua de mão única (Brasiliense, 2004)

BINES, Rosana Khol. No estúdio verbal de Leila Danziger (2015)

BRIZUELA, Natália. Depois da fotografia (Rocco, 2014)

CAMPOS, Augusto. Outro (Ateliê, 2015)

CALIXTO, Fabiano & TOSTES, Pedro (org.) Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos (Os Vândalos, 2013)

CASA NOVA, Vera. Fricções: traço, olho, letra (UFMG, 2008)

CHIARA, Ana (org.) Corpos diversos (Ed. UERJ, 2015)

CICERO, Antonio (org.) Forma e sentido contemporâneo Poesia (Ed. UERJ, 2012)

CORONA, Ricardo. Curare (Iluminuras, 2011)

DAMASCENO, Rodrigo Lobo. Tatuagens complicadas do meu peito (2015)

DANZIGER, Leïla. Edifício Líbano (UERJ, 2012)

DANZIGER, Leïla. Diários públicos (Contra Capa, 2013)

DANZIGER, Leïla. Todos os nomes da melancolia (Apicuri, 2012)

DANZIGER, Leïla. Três ensaios de fala (7Letras, 2013)

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Felix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia (34, 1995)

DERRIDA, Jacques. Che cos’è la poesia? (Angelus Novus, 2003)

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha (34, 2006)

DOMENECK, Ricardo. a cadela sem Logos (Cosac, 2007)

DOMENECK, Ricardo. Sons: Arranjos: Garganta (Cosac, 2009)

FREITAS, Angélica. Rilke shake (Cosac, 2007)

FREITAS, Angélica. Um útero é do tamanho de um útero (Cosac, 2012)

FLORES, Guilherme Gontijo. Tróiades – remix para o próximo milênio (Patuá, 2015)

GARCIA, Marília. Teste de resistores (7Letras, 2014)

GARRAMUNO, Florencia. Frutos estranhos (Rocco, 2014)

GUIMARÃES, Cao. CAO (Cosac, 2015)

GUIMARÃES, Cao. Histórias do não ver (Cobogó, 2013)

GUIMARÃES, Cesar. Imagens da memória (UFMG, 2001)

HERKENHOFF, Paulo (org.) Arthur Bispo do Rosário (2012)

HIDALGO, Luciana. Arthur Bispo do Rosário: o senhor do labirinto (2011)

LAGNADO, Lisette. Leonilson: são tantas as verdades (SESI, 1999)

LEONILSON, José. Use, é lindo, eu garanto (Cosac Naify, 2006)

LIMA, Carlos Augusto. Ciranda de poesia: Ricardo Aleixo (EdUERJ, 2011)

MACÊDO, Lucíola Freitas. Ferid’alíngua: a poética de Leila Danziger (Arquivo Maaravi, 2014)

NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura & filosofia (UFSC, 2016)

NANCY, Jean-Luc. Resistência da poesia. Trad. Bruno Duarte. Lisboa: Vendaval, 2005.

NODARI, Alexandre. Eu, pronome oblíquo (Tradução em revista, 2015)

PATO, Ana. Literatura expandida. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2012.

PEDROSA, Adriano. Leonilson: Truth fiction. Rio de Janeiro: Cobogó, 2015.

PERLOFF, Marjorie. O gênio não original (UFMG, 2013)

KIFFER, Ana. Expansões contemporâneas (UFMG, 2015)

PUCHEU, Alberto. A fronteira desguarnecida (Azougue, 2007)

PUCHEU, Alberto. Apoesia contemporânea. (Azougue, 2014)

PUCHEU, Alberto. Mais cotidiano que o cotidiano (Azougue, 2013)

RAMOS, Nuno. Cujo (Iluminuras, 1993)

RAMOS, Nuno. Fruto estranho (MAM, 2010)

RAMOS, Nuno. Junco (Iluminuras, 2011)

RAMOS, Nuno. Nuno Ramos (Cobogó, 2011)

RAMOS, Nuno. Ó (Iluminuras, 2008)

RIBEIRO, G. S. A carne o cosmos (Espantalhos desamparados, 2015)

RIBEIRO, G. S. A noite explode nas cidades: três hipóteses sobre Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos (Outra Travessia, 2016)

RIBEIRO, G. S. Catálogo dos mortos: a cultura latino-americana e os inventários do horror (ALEA, 2015)

RIBEIRO, G. S. Interromper o instante, interrogar o agora: a poesia de Alberto Pucheu (Café com Letras, 2016)

ROTHENBERG, Jerome. Etnopoesia do milênio (Azougue, 2008)

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Leïla Danziger e Eugenia Bekeris: um díptico sobre a nova arte da memória. (Lua Nova, 2015)

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Palavra e imagem, memória e escritura (Argos, 2006)

SISCAR, Marcos. A soberba da poesia (Lumme, 2013)

SISCAR, Marcos. Poesia e crise (Ed. UNICAMP, 2010)

SOUZA, Alice Costa. Imagens de memória/esquecimento na contemporaneidade (EBA/UFMG, 2011)

STERZI, Eduardo. Aleijão (7Letras, 2009)

STERZI, Eduardo. Maus poemas (7Letras, 2016)

STIGGER, Verônica. Delírio de damasco (Cultura e Barbárie, 2013)

STUDART, Julia. Ciranda de poesia: Nuno Ramos (Ed. UERJ, 2014)

TASSINARI, A. & MAMMI, L. & NAVES, R. Nuno Ramos (Ática, 1997)

TROCOLI, Flávia & SOUZA, Ricardo. Nuno Ramos e a linguagem das coisas abandonadas (Remate de Males, 2015)

VALLIAS, André. Totem (Cultura e Barbárie, 2013)

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem (Cosac, 2002)

ZUNTHOR, Paul. Introdução à poesia oral (UFMG, 2011)

ZUNTHOR, Paul. Performance, recepção, leitura (Cosac, 2007)

— 24/06/2016
Pensar a crítica (I) — 14/06/2016

Pensar a crítica (I)

Não é segredo para ninguém: ofereço no próximo semestre, na FaLe/UFMG, uma disciplina que procura apresentar um panorama da crítica e do ensaísmo literário no Brasil das últimas décadas. A versão inicial do programa, a ementa e algumas referências bibliográficas encontram-se aqui mesmo no blog.

Aproveitando as minhas anotações de aula, e também a partir de um convite da querida Maria João Cantinho, escrevi algumas palavras sobre o Márcio Seligmann-Silva, apresentando-o ao público português. Achei o resultado razoável e passarei a compor uma série com pequenos textos sobre os autores que aparecerão no curso. Convidarei colegas a fazer o mesmo, a fim de organizarmos, com nossos parcos recursos, um roteiro do presente, um mapa do território que, todos nós, vamos percorrendo e construindo juntos. Não haverá, creio, grande novidade: trata-se de apresentar aos alunos, de modo amplo e sintético, as linhas de força do trabalho de críticos e ensaístas que agora escrevem.

 

Os próximos textos vêm já: primeiro Wander Melo Miranda, depois Eduardo Sterzi e Maria Esther Maciel

*

Márcio I

Márcio Seligmann-Silva – a emergência do pensamento

 

 

Professor, crítico e tradutor, Márcio Seligmann-Silva é um dos pesquisadores mais destacados da cena intelectual brasileira do presente. Sua inquieta obra desdobra-se em múltiplas direções, abrangendo diferentes áreas do conhecimento e não se limitando a nenhuma delas. Atuando na grande área das Letras (e da literatura em particular), ele no entanto frequenta a crítica da cultura, a história, o discurso filosófico e a psicanálise com desenvoltura, fazendo dialogar todos esses campos do saber em seus textos e cursos universitários. Ligado, por formação e interesse, às letras e ao pensamento alemão, Seligmann-Silva tem na figura do inclassificável Walter Benjamin talvez aquele que seja o seu mais constante e profícuo interlocutor, fazendo reverberar em seus escritos muitos dos conceitos e formulações do autor de Rua de mão única. Um dos maiores divulgadores da obra benjaminiana no Brasil, Márcio Seligmann no entanto não se propôs apenas a comentar e traduzir Walter Benjamin – coisa que o fez, e bem, em diversos momentos; ele dispôs-se principalmente a pensar a partir dele, apropriando-se do seu imenso legado e tomando-o como provocação e desafio para refletir detidamente sobre o tempo presente, as contradições e urgências que o atravessam e constituem, no Brasil e no mundo.

Muitos dos seus mais conhecidos trabalhos parecem ecoar, de algum modo, a lição de Walter Benjamin, apesar de alimentarem-se também de pensadores tão diversos entre si como G. E. Lessing, Sigmund Freud, Theodor Adorno, Jacques Derrida e Shoshana Felman, entre outros. Uma breve lista dos seus temas mais recorrentes vai revelar isso, o dado benjaminiano e a busca de sua reelaboração original e desestabilizadora: o papel central do primeiro Romantismo no pensamento moderno, sua atualidade mesma; o lugar da tradução – e a proposição de uma prática ativa e criativa da tradução – entre as tarefas fundamentais da atividade reflexiva, espécie de condição e ponto de passagem do pensamento; a reconfiguração epistemológica deflagrada pelas catástrofes modernas, de modo especial as Grandes Guerras do século XX, que abalaram não só a tradição do humanismo europeu quanto também certas noções gerais que se consideravam estáveis no campo da linguagem, da ética e da epistemologia; a busca e a decifração das novas formas artísticas, por fim, que fossem capazes de responder aos novos contextos e às novas demandas estéticas e políticas que surgiam e se impunham com o novo desenho de forças do mundo do pós-guerra e dos traumas políticos do século (o testemunho, os antimonumentos, o trabalho em torno das ruínas e dos arquivos). Como se vê, a cada passo e passagem do trabalho de Márcio Seligmann-Silva, a construção de um caminho crítico particular e autônomo se deu a partir do jogo consciente, e bastante produtivo, com o vasto universo benjaminiano, universo que vem revelando, ainda uma vez, a sua inesgotabilidade e atualização.Marcio II

A emergência do pensar que caracteriza o trabalho do crítico tem, nesse sentido, rebatimento nas circunstâncias históricas que o cercam e na matriz teórica principal que a anima. O caráter urgente e necessário da reflexão crítica – que se dá sempre numa combinação entre rememoração do passado e a proposição de novos conceitos e novas práticas políticas e estéticas para o presente – vai assim marcar decisivamente o percurso intelectual que se procura delinear, na medida em que tudo nele parece ser marcado pela dupla injunção que indica, inexoravelmente, que só é possível conhecer e transformar o presente se se é capaz de trazer viva a memória da catástrofe passada, catástrofe que, conforme a leitura dos tempos atuais parece confirmar a cada instante, não cessou jamais, reproduzindo-se sob diferentes formas na vida cotidiana dos tempos que correm. E é nesse sentido que se pode compreender a passagem operada pelo autor ao longo da trajetória que foi construindo como pesquisador e ensaísta: advindo da leitura (levada a cabo no volume Ler o livro do mundo (Iluminuras, 1999) do Romantismo alemão e do estabelecimento, a partir dele e também de Walter Benjamin, de um conceito de crítica que fosse fundamentalmente hermenêutico e negativo, isto é, que estivesse fundado na tarefa infinita e desestabilizadora da ‘leitura do mundo’ (e não o seu comentário), espaço no qual a prática reflexiva ocuparia o terreno antes dedicado à celebração de autores e à repetição de obras e gestos tradicionais, Márcio Seligmann-Silva pôde chegar, ao longo do tempo, à prática de um ensaísmo marcado por temas como a memória e o trauma, centrais para a interpretação que faz da cultura contemporânea. Para ele, a tarefa da crítica, como se viu, só pode se realizar plenamente como negatividade, o que indica a percepção – por parte do crítico da arte, da cultura e das formas sociais – das fraturas, das contradições e silêncios que operam nesse mesmo tecido cultural e social. Daí o autor ter chegado à questão da violência e sua relação com a linguagem e a história, os temas que dominarão, sob múltiplos aspectos, sua produção posterior.

Um dos operadores conceituais mais importantes para a obra de Seligmann-Silva é o testemunho, essa modalidade político-textual e possibilidade narrativa que ganha força com a Shoah e os relatos dos sobreviventes da barbárie nazista. O pesquisador não só tratou de estudar e divulgar o tema (até então pouco explorado) no contexto brasileiro, quanto pôs-se a reelabora-lo, pensando-o à luz das condições históricas do país – os traumas, por exemplo, decorrentes da última ditadura – e da sua produção literária moderna. Se na questão do testemunho vão se articular, como é sabido, os limites da linguagem e o dever do relato, num emaranhado de referências que ao mesmo tempo explicita os abalos que a própria noção de representação irá sofrer, além de apresentar novas perspectivas éticas e estéticas para a questão, Márcio Seligmann-Silva vai acrescentar a esse universo intrincado de ideias uma reflexão extensa sobre a Teoria do Sublime, afirmando que a falência da linguagem experimentada por aqueles que procuraram narrar o horror dos campos da morte e de outras experiências-limite da Era dos Extremos (para falar aqui com Eric Hobsbawn) pode ser aproximada, produtivamente, do pensamento sobre o indizível e a recuperação – laica e estética – do sagrado no mundo e na arte pós-Iluminista. Em livros como História Memória Literatura (Ed. UNICAMP, 2003) e O local da diferença (34, 2005) o ensaísta vai propor tal dimensão crítica, além de explorar também um outro viés do conceito de testemunho: para ele, além da prática em si dessa modalidade textual, ligada às circunstâncias particulares das catástrofes políticas do século XX (a Shoah, os Gulag na União Soviética, a destruição das comunidades tradicionais indígenas das Américas, as ditaduras do cone Sul), seria possível considerar também que obras literárias francamente ficcionais podem portar igualmente uma dimensão do testemunho, desde que estejam relacionadas à violência e ao horror. É o que ele vai chamar de ‘teor testemunhal’, numa tentativa bastante pessoal (e polêmica, para alguns) de aprofundamento e readaptação conceitual, num movimento que alarga o horizonte dos estudos do testemunho ao incorporar a eles parte significativa da literatura brasileira moderna, localizando em obras como o romance Grande sertão: veredas, por exemplo, elementos que permitem pensar esse imenso relato de barbárie e confissão sobre o Brasil arcaico e profundo como um texto que apresenta características do texto testemunhal.

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As formas contemporâneas da arte e dos ritos sociais da memória têm interessado também ao crítico brasileiro, que vêm procurando identificar e dimensionar o papel que novos artistas e escritores cumprem no processo de renovação das artes da memória num mundo pós-catástrofe. Estudando, nesse sentido, diferentes mídias e discursos, Márcio Seligmann-Silva procura acompanhar em seus textos a produção contemporânea em torno do tema, bem como os movimentos coletivos e institucionais que, a partir dos temas da memória, da justiça e da reparação histórica, vêm ampliando a visibilidade política dos crimes e violências do passado. Os restos da última ditadura brasileira, bem como a atuação da Comissão Nacional da Verdade foram – e continuam sendo – objeto de seus textos e conferências. Vale destacar também, por fim, o cuidado com que o ensaísta vem lidando com a obra de artistas plásticos brasileiros que têm nas tragédias pessoais e coletivas, na Shoah e numa espécie de política da memória o seu foco de criação e zona de interesse. O caso mais relevante parece ser o da artista carioca Leïla Danziger, cujo trabalho com nomes próprios, arquivos pessoais (do seu próprio pai, de imigrantes judeus que aportaram no Brasil no século XX) e fragmentos materiais do passado vem construindo uma forte e delicada metáfora visual da recordação, que funde em suas telas, objetos e instalações a questão do testemunho, as múltiplas formas da memória, a impossibilidade da representação transfiguradora da catástrofe (uma vez que a artista recusa a mimese e prefere apresentar, em suas obras, os restos mesmos, a presença física, do passado e da morte) e o desvio metonímico, que repele as formas de totalidade e prefere a incompletude e a estética do fragmento. Como se vê, na leitura dedicada que Márcio Seligmann-Silva faz das obras dessa artista, estão projetados e em mistura todos os temas que lhe são caros, temas que revelam, por sua vez, a emergência constante e sem fim do passado, bem como a urgência do pensamento crítico que localiza no presente as fissuras, as lacunas e os não-ditos que se impõem como responsabilidade (como endereçamento e dever de resposta) ao intelectual interessado em conhecer e transformar o seu próprio tempo.

Abralic, 2016, Rio — 10/06/2016

Abralic, 2016, Rio

Amigas e amigos,

saiu a programação do Simpósio da ABRALIC que eu, Tiago Pinheiro, Nicola Gavioli e Juliana Bratfisch organizamos. A conversa vai girar, quase como sempre, sobre poesia contemporânea. Aos que estiverem no Rio entre 19 e 23 de setembro, e talvez um pouco antes e um pouco depois, divulgo, convido e prometo:

 

Simpósio 49

Poesia contemporânea: reconfigurações do sensível no Brasil e na América Latina

Ju

Mesa I

O retorno do real

[coordenação: Gustavo Silveira Ribeiro]

  1. Três disparos em Sarajevo: poesia, fotografia e violência em Claudia Roquette-Pinto – Aulus Mandagará Martins (UFPEL)
  2. O signo espesso (na poesia de Tarso de Melo) – Renan Nuernberger (USP)
  3. 4 poemas contemporâneos atravessam a rua sem cuidado ou distração como atitude heroica na grande cidade – Rafael Zacca (PUC-Rio)
  4. De um outro mundo: poéticas imigrantes na América Latina – Luciano Ramos Mendes (UFSC)
  5. Eclipse e despedida: representações da doença de Alzheimer na cultura brasileira contemporânea – Nicola Gavioli (FIU)

Tarso

Mesa II

Poesia, não-poesia e além

[coordenação: Tiago Guilherme Pinheiro]

Tiago

  1. Os (des)limites da poesia: expansão e passagem no Brasil contemporâneo – Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG)
  2. Será que a poesia brasileira contemporânea realmente prepara o terreno para abandonar o corpo da poesia, apesar de seus afetos? – Juliana Gonçalves Bratfisch (UNICAMP)
  3. Composto de objetos litigiosos – Masé Lemos (UNIRIO)
  4. O pixo e a invenção da escrita: notas sobre poéticas contemporâneas de muro, página e tela em Belo Horizonte – Miguel de Ávila Duarte (UFMG)
  5. A palavra dentro e fora de si na poética de Arnaldo Antunes: uma leitura de n. d. a. – Glauber Mizumoto Pimentel (UERJ)

BH

 

Mesa III

Nicola

Novos modos do sensível e do estranhamento

[coordenação: Nicola Gavioli] 

  1. Cálculos nos intestinos da prosa: a poesia como corpo estranho em Paulo Henriques Britto – Eduardo Horta Nassif Veras (UNICAMP)
  2. Música ambiente: a transmissão como o desapercebido em Walter Gam – Tiago Guilherme Pinheiro (UNICAMP)
  3. A imaginação poética no mundo de hoje – Cristina Henrique da Costa (UNICAMP)
  4. A linguagem-corpo da voz na poesia brasileira contemporânea – Susana Busato (UNESP – Rio Preto)
  5. Experiência comum e performance oral como cura e resistência – Alemar Rena (UFSB)

PHB

 

Mesa IV

Gu.jpg

A vertigem da história: passado e presente

[coordenação: Juliana Gonçalves Bratfisch]

  1. Olhinhos de gato – reflexividade e autorreferência na obra autobiográfica de Cecília Meireles – Aline Magalhães Pinto (PUC-Rio)
  2. A mesa de Waly: para ler o que não está escrito – Roberto Said (UFMG)
  3. A superfície do segredo: a democracia e a metáfora num poema de Leonardo Fróes – Luiz Guilherme Barbosa (UFRJ)
  4. Do virtual ao atual: a fábrica do poema – Rafael Lovisi (UFMG)
  5. A construção metafórica em Micheliny Verunschk: uma leitura de suas imagens – Érica Alves Rossi (UFMS – Três Lagoas)

 

 

LeilaDanziger

Interromper o instante, interrogar o agora – sobre a poesia de Alberto Pucheu — 05/06/2016

Interromper o instante, interrogar o agora – sobre a poesia de Alberto Pucheu

para Marina Baltazar e Laura Gabino

 

O que significa pensar poeticamente o presente? Entre tantas outras, essa parece ser a pergunta fundamental que atravessa, secreta e subterrânea, o livro de poemas Mais cotidiano que o cotidiano (Azougue/ 2013), de Alberto Pucheu. Poesia híbrida, habitando, às vezes harmônica, às vezes dramaticamente uma espécie de fronteira, ela se dilacera o tempo todo entre o verso e a prosa, a voz e a letra, o autobiográfico e o impessoal, a notação lírica e o dado reflexivo do ensaio, a Literatura e a Filosofia, enfim. De modo mais intenso do que boa parte de sua geração (Eucanaã Ferraz, Cláudia Roquette-Pinto, Ricardo Aleixo, por exemplo), Pucheu procura investigar os sentidos do contemporâneo, fazendo da sua poesia, em mais de um momento, palco privilegiado de um debate complexo (poetológico e também ético), sobre as formas, as contradições, as catástrofes do seu tempo (que é igualmente nosso) e a maneira de representá-las, isto é, não apenas de passá-las ao papel, mas sobretudo de as enfrentar e revirar, fazendo da mimese campo de produção e dúvida, no qual a repetição e o reconhecimento não são os elementos principais.

Mais cotidiano

Desde o título do volume, Mais cotidiano que o cotidiano, é nítida a atenção ambígua que o poeta confere ao tempo, à sua relação singular com o tempo (ao seu cotidiano), mas também com a época em que lhe foi dado viver e escrever. Ao escavar os significados que se escondem sob as ações do cotidiano (sob o próprio sintagma e suas variações), a poesia de Pucheu traz à tona diferentes camadas e direções que o tempo pode assumir, revelando que aquilo que nos move no correr dos dias são possibilidades, são temporalidades distintas que se combinam e delineiam o simples existir:

 

[…]

Não,

não são os grandes motores que nos movem

cotidianamente, mas aqueles

que trabalham em baixa rotação,

que quase não se deixam perceber

senão quando subitamente engasgam

e, de repente, esgarçam o tecido

do tempo, que aparece em seu limite,

em sua negação, em seu mais fora

do presente, do passado e do futuro,

fraturado, deixando aparecer,

na fratura, um tempo outro, um contratempo,

um antitempo, um antetempo, um outro

lado do que chamamos como tempo

[…]

(PUCHEU, 2013, p. 29)

 

No coração do cotidiano há uma fratura, um cisão que indica a possibilidade de “um tempo outro”, no qual, claro está, outros valores e vivências podem se esboçar. Nesse sentido, e em primeiro lugar, trata-se de notar como se afirma, no texto, um modo de estranhamento ao presente: a expressão que serve de base ao título indica a distância que o livro mantém em relação ao tempo vazio do hábito e dos dias circulares, das grandes narrativas e seus sentidos prontos e transbordantes – assim como também da chamada poesia do cotidiano, de longa memória na lírica moderna e contemporânea (Willian Carlos Willians, Wislawa Szymborska, Adília Lopes, por exemplo) e que, no Brasil, aproxima nomes como Manuel Bandeira, José Paulo Paes e Adélia Prado. O suplemento aqui (como também para Jacques Derrida) indica diferença, curiosamente: ao invés de se render mais diretamente aos pequenos gestos e fendas do dia a dia, tratando de representa-los e de desentranhar deles a matéria do poema, o livro prefere desfazer a trama do cotidiano individual, de corte familiar e narcísico, a fim de expor aquilo que há de comum, de coletivo e impessoal, de apropriável e anônimo, na vida e na história do presente. Mais cotidiana que o cotidiano, nesse sentido, é a exploração de uma fissura no tempo, uma pequena abertura que possibilita a contemplação de zonas inesperadas no fluxo de acontecimentos que, na sua sucessão contínua e tantas vezes invisível, chamamos tempo presente. O agora, para Pucheu, são os rasgos no tecido homogêneo do tempo, interrupções que permitem imaginar, ainda que na brevidade de um instante, aquilo que o mundo guarda como potência e força de criação. Mesmo quando se aproxima de uma certa figuração da intimidade – e há toda uma seção do livro (“O livro de hoje do amor”) dedicada ao encontro erótico e à experiência amorosa, nos quais muito do espaço privado está exposto e devassado – a tônica é sempre a da desfamiliarização, do desencontro com a experiência codificada e sempre fácil de reconhecer. A representação do sexo e do convívio amoroso terá sempre para o poeta, ao menos nesse livro específico, a marca de um desconhecimento, seja pelo aproveitamento muito habilidoso que faz dos textos e histórias de outros (amigos, escritores, estranhos), seja pelo que há de misterioso e imprevisível na rotina apresentada, na mulher a quem muitas vezes o eu-lírico se endereça em cada poema.

Pucheu 4

Num segundo momento, no entanto, é possível notar no livro um interesse profundo, quase obsessivo, com o mundo contemporâneo, seus sons, seus discursos, seus riscos e potencialidades. Quase toda a série dos “arranjos”, sobre as quais voltaremos a falar com cuidado mais adiante, é índice disso: nela está cifrada, de modo ao mesmo tempo muito direto e muitíssimo elaborado, uma espécie de instantâneo sonoro (e moral) de nossa época, no qual se guardam as muitas violências e algumas belezas que cercam a vida que nos foi dado viver e observar. Nos textos “Arranjo para tornar o mundo cada dia pior e mais violento (antivoz)” [partes I e II] e “Arranjo para tornar o mundo cada dia menos violento (pós-voz)”, por exemplo, pode-se, respectivamente, ouvir a voz fria e terrível de Anders Breivik, o terrorista que detonou explosivos e assassinou a tiros 77 pessoas (a maioria jovens) na Noruega, em 2011:

quero deixar bem claro que eu sou contra as guerras ou quaisquer que sejam os atos de violência sem motivo justo, e também quero deixar bem claro que eu não sou o responsável por todas as mortes que ocorrerão, embora meus dedos serão responsáveis por puxar o gatilho. (…) os conservadores precisarão tomar o poder político e militar dentro dos próximos 70 anos, senão a única alternativa será a continuidade do modelo de bastardização, muito próximo ao do brasil, onde tem vigorado a miscigenação. essas orientações se mostraram catastróficas. (PUCHEU, 2013, p. 23-24)

 

E também os nomes de parte de suas vítimas, mesclados aos nomes dos mortos em outro atentado, ocorrido no Brasil, numa escola do bairro do Realengo, periferia do Rio de Janeiro, no mesmo ano. Dispostos em sequência livre, sem nenhum outro qualificativo ou organização, os nomes formam um recitativo grave, de tonalidade fúnebre e algo religiosa, nos quais as vítimas quase desconhecidas da violência incompreensível se aproximam e se tocam, construindo a estranha semelhança do absurdo e a solidariedade que a dor pode proporcionar:

Ana Carolina Pacheco da Silva, Bianca Rocha Tavares, Géssica Guedes Pereira, Karar Mustafa Qasim, Andreas Edvardsen, Ronja Sottar Johansen, Emil Okkenhaug, Asta Sofie Helland Dahl, Monica Iselin Didriksen, Rune Havdal, Tore Eikeland, Espen Jorgensen, Karin Elena Holst, Aleksander Aas Eriksen, Victoria Stenberg, Ruth Benedicte Vatndal Nilsen, Isabel Victoria Green Sogn, Ida Beathe Rogne, Elisabeth Tronnes Lie, Monica Elisabeth Bosei, Igor Moraes, Havard Vederhus, Carina Borgund, Ingrid Berg Heggelund, Tarald Kuven Mjelde, Porntip Ardam, Andrine Bakkene Espeland, Torjus Jakobsen Blattmann, Jamil Rafal Mohamad Jamil, Tina Sukuvara, Karine Chagas de Oliveira, Larissa dos Santos Atanásio, Fredrik Lund Schjetne […]

(PUCHEU, 2013, p. 27)

 

Essa atenção expectante àquilo que, no presente, circula como linguagem comum, ora violenta e brutal, ora inocente e melancólica, vem acrescentar uma outra dimensão à relação propriamente política que o poeta mantém com a sua época. Se a recusa do cotidiano alienado levava a poesia até os motores “de baixa rotação” e às fissuras da superfície porosa do mundo contemporâneo, revelando o que há nelas de maquinismo e sobredeterminação, a abertura e interesse em relação aos acontecimentos da cena contemporânea, muito notáveis em Mais cotidiano que o cotidiano, dão ao livro um sentido de memória viva do seu próprio tempo, na qual vão se depositando as experiências mesquinhas, os xingamentos, as imagens insuportáveis, as vozes esquecidas ou desimportantes que o constituem e distinguem. Aquilo que é, no livro, experimentação de novas formas poéticas, de caminhos diversos para o impasse formal que muitas vezes se impõe, é também chave para a reflexão de natureza social que ali tem lugar, num modo de aproximação tensa entre ética e estética, que faz com que a busca por novos modos de expressão seja igualmente a chave para a elaboração de novas maneiras de interrogar o agora, novos instrumentos com que sondar a si e ao outro.

Nesse sentido, uma das estratégias desenvolvidas pelo autor pode ser descrita como uma muito particular teoria da despossessão. Tanto no que se refere à construção dos seus poemas, como artefatos de linguagem, quanto à dança das ideias que eles propõem, está-se diante, no livro em tela, de um processo de renúncia à posse das palavras, ao rigor da identidade e da assinatura, ao conforto do pertencimento. Muitos são os textos nos quais figuram bárbaros desterrados, migrantes em viagem, sujeitos (o próprio poeta, entre tantos outros) que existem, preferem existir antes de “qualquer direito,/de qualquer convenção, do livre arbítrio,/do estado civil, antes do tamanho dos ossos,/do formato da orelha, das impressões digitais/dos dedos, das extensões do rosto, da fotografia” (PUCHEU, 2013, p. 34), antes de qualquer coisa que os limite e condicione, aprisionando-os nos compartimentos estreitos da identidade servil e do poder, especialmente o biopoder – controle dos corpos e do que neles é centelha de vida.

Café com Letras - I

Assim como os sujeitos dessubjetivam-se, reconhecendo-se uns nos outros como matéria comum, comunidade que vem, comunidade não-gregária que partilha atributos e não pode ser de todo assujeitada (conforme está posto no belíssimo “Poema para ser lido na posse do presidente”, talvez o eixo em torno do qual o livro gira), a própria linguagem com que se erguem os poemas encontra-se, ela também, dessubjetivada e impessoal, feita de retalhos de outras vozes e outros discursos. Poesia em língua alheia, poder-se-ia dizer, na medida em que se alimenta e informa de diferentes assinaturas e falas, num gesto de busca e acolhimento que guarda muito do sentido ético do livro. Próximo e distante, a um só tempo, de outros escritores brasileiros que têm se utilizado de procedimento similar (de modo especial Angélica Freitas em Um útero é do tamanho de um punho e Verônica Stigger em Delírio de Damasco), Pucheu encontra nos seus arranjos um modo de celebrar e exorcizar as vozes invasivas do presente, vozes que se impõem aos ouvidos do escritor que parece disposto a suportá-las, trazendo-as para dentro do texto poético de modo a mostrar que elas podem, ao mesmo tempo, alargar a experiência criativa – fazendo-a falar por meio de uma voz coletiva e imprópria, capaz de descentrar poeta e poema – e resistir a essa mesma experiência, emperrando-a em alguns momentos, apontando para os limites da linguagem e da razão.

Leitor de filosofia antiga e contemporânea, de Platão e Agamben, ensaísta e crítico literário, Pucheu – autor de, entre outros, apoesia contemporânea e Kafka poeta, ambos de 2015 – parece ter tomado as palavras de Jean-Luc Nancy (em Résistance de la poésie) como mote e senha de seu livro, voltando-a para o que há de metatextual e de político nele: “a poesia não coincide com si, pode estar onde a própria poesia é ausente. Essa não-coincidência, essa impropriedade essencial é o que faz da poesia, poesia.” (NANCY, 2005, p. 11). A impropriedade essencial da poesia, a não-coincidência consigo, excusado é repetir, diz respeito também à condição do poeta e do homem comum, sempre em desacordo essencial e libertador com o que há em si de identidade e repetição não-diferenciada. Essa impropriedade diz algo também à ambiguidade da vida nua que nos habita e constitui como corpos – vida dessacralizada e de tudo despojada, do mesmo modo que é também vida pura potência, infinitamente desdobrável diante de si. Ou, conforme as palavras do poeta:

 

(…) São corpos matáveis, como

ao fim de uma partida de futebol,

como durante um assalto, como na fila

de um hospital, ou por bala perdida

ou certeira polícia e dos traficantes,

como por acidentes, pelas drogas, pela fome…

São corpos gloriosos, como durante

uma partida de futebol, como durante

uma semana de carnaval, como em um show

de rock, em uma mesa de bar com amigos,

em um mergulho noturno ou diurno no mar,

como quando fazem amor ou quando,

mesmo sem o fazerem, se amam

por toda a vida ou por apenas

alguns instantes.

(PUCHEU, 2013, p. 34-35)

 

Um outro desenvolvimento ainda, por fim, pode ser percebido nessa interseção entre as questões que aqui estão em jogo. O tópico da poesia em língua alheia, que aproveita as vozes e ruídos do mundo circundante para transformá-los em sentido e obra, é lançado a outro patamar por dois outros poemas: “Iaque” e “Perfil parcial de um procedimento, escrito por Caio Meira”. Em ambos, o registro é francamente autobiográfico, mas a distância que se quer manter em relação ao eu e à verdade do sujeito não poderia ser maior. No primeiro, o poeta deseja a incompreensão, a despossessão total como condição primeira para falar de si, discurso que só pode se dar num idioma estranho, não-conhecido e impronunciável. O símile buscado guarda a radicalidade da proposta: o poeta gostaria de ver a si mesmo (e traduzir-se em linguagem, claro está) com os olhos, a sensação de um animal desconhecido a “atravessar um despenhadeiro do Himalaia” (PUCHEU, 2013, p. 49), pura presença que desconhece a si, metafisicamente falando, mas que tem segurança na travessia arriscada que faz. No segundo poema, por sua vez, as anotações – ficcionais ou não – do poeta Caio Meira sobre Pucheu indicam duplamente que a escrita em Mais cotidiano que o cotidiano se faz como estranhamento e se alimenta de palavras alheias, a modo de impostura: não só o poema é escrito por outrem, como tem como matéria uma cena em que Alberto Pucheu, jovem e ainda tateando a linguagem em busca da sua própria dicção, anota palavras soltas, lidas e ouvidas ao acaso, nos encontros e esbarrões do trem de passageiros da Central do Brasil, numa cena que irá funcionar como uma espécie improvável de poética, a narrativa das origens dos arranjos – cuja estrutura musical, intuída em seu nome, se revela de pronto; é como se a abstração geográfica em que habitamos, nos diz Meira/Pucheu, finalmente pudesse ser ouvida: “A cidade passava a se dizer [– a cantar a si mesma? –] pela voz de seus próprios cidadãos” (PUCHEU, 2013, p. 53).

A reversão que esses textos colocam, vista em perspectiva numa tradição poética como a brasileira, na qual a poesia confessional, atada fortemente à experiência irredutível do indivíduo, é dominante, assinala verdadeira conquista, na medida em que, mais uma vez, parece unir as duas pontas do projeto que se desenha no livro: ao desenvolver novas possibilidades expressivas para seus versos, ampliando o que eles têm de inquietação e recusa em relação às formas codificadas, o poeta também se retrai, quase se retira da cena, transformando-se em agenciador de palavras e sons outros, alheios, muitos dos quais jamais seriam ouvidos (dada a invisibilidade social ou cultural a que estavam submetidos) se assim não fosse. Ética e estética, de novo, vêm aqui se encontrar e problematizar mutuamente.

Agamben
Giorgio Agamben

Poesia pensante, escrita às vezes áspera e inclassificável, os textos que compõem Mais cotidiano que o cotidiano parecem trazer para si, em seu conjunto firme e bem-ordenado, algo da beleza dura e frágil de Franz Kafka (sua imagem e seus textos), referência e personagem que aparecem mais de uma vez no livro, e que fornecem o modelo, quem sabe?, desses textos que vislumbram, de um só golpe, a prisão que todos carregamos dentro de nós (cf. PUCHEU, 2013, p. 61) e a maneira de nos livrarmos delas.

 

Referências bibliográficas

AGAMBEN, Giorgio. A comunidade que vem. Trad. Claudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer. A vida nua e o poder soberano. Trad. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

DERRIDA, Jacques. Gramatologia. Trad. Miriam Chnaiderman & Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Perspectiva, 2002.

FREITAS, Angélica. Um útero é do tamanho de um punho. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

NANCY, Jean-Luc. Resistência da poesia. Trad. Silvina Rodrigues Lopes. Lisboa: Vendaval, 2005.

PUCHEU, Alberto. apoesia contemporânea Rio de Janeiro: Azougue, 2015.

PUCHEU, Alberto. Kafka poeta (Rio de Janeiro: Azougue, 2015.

PUCHEU, Alberto. Mais cotidiano que o cotidiano Rio de Janeiro: Azougue, 2013.

STIGGER, Verônica. Delírio de Damasco Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2012.

do que se esconde no futuro (V) — 23/05/2016

do que se esconde no futuro (V)

Terceira e última disciplina que oferecerei no semestre que vem na Faculdade de Letras da UFMG. Trata-se da formação obrigatória da área. O curso no Pós-Lit, por conta dos rodízios propostos pelo setor de Literatura Brasileira, só no primeiro semestre do ano que vem.

 

Título

Introdução à literatura brasileira

 

Ementa

Leitura e estudo de obras literárias que ocupam pontos-chave no cânone literário brasileiro.

 

Programa 

  • Tempo, origem, direção
  • A condição colonial
  • Uma literatura empenhada
  • Leituras do cânone:
  1. “Sermão de Santo António aos peixes” – Pe. Antônio Vieira
  2. Marília de Dirceu – Tomás Antônio Gonzaga
  3. Poesia indianista – Gonçalves Dias
  4. Memórias de um sargento de milícias – Manuel Antônio de Almeida
  5. O Ateneu – Raul Pompéia
  6. Dom Casmurro – Machado de Assis
  7. Poesia Pau-Brasil/Manifesto antropófago – Oswald de Andrade

 

AteneuEntretempos

 

Bibliografia

ALCIDES, Sérgio. Estes penhascos: Cláudio Manoel da Costa e a paisagem das Minas 1753-1773 (Hucitec, 2003)

ALMEIDA, Manuel Antônio. Memórias de um sargento de milícias (Cia. das Letras, 2013)

ALENCAR, José. Iracema (Companhia das Letras, 2016)

ALENCAR, José. O Guarani (Ateliê, 2014)

ANDRADE, Mário. Aspectos da literatura brasileira (Martins, 1986)

ANDRADE, Mário. Macunaíma (Martins, 1997)

ANDRADE, Mário. Obra imatura (Agir, 2013)

ANDRADE, Mário. Poesia completa [2v.] (Agir, 2012)

ANDRADE, Oswald. A utopia antropofágica (Globo, 2011)

ANDRADE, Oswald. Poesia Pau-Brasil (Globo, 1997)

ANJOS, Augusto. Eu e outras poesias (Lacerda Editores, 1999)

ASSIS, Machado. Obras completas [3v.] (Nova Aguilar, 1986)

AZEVEDO, Álvares. Lira dos vinte anos (Ateliê, 2001)

BANDEIRA, Manuel. Apresentação da Poesia Brasileira (Cosac, 2011)

BAPTISTA, Abel Barros. Autobibliografias (Ed. UNICAMP, 2003)

BAPTISTA, Abel Barros. O livro agreste (Ed. UNICAMP, 2005)

BOSI, Alfredo. Céu, inferno (34, 2003)

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização (Companhia das Letras, 1992)

BOSI, Alfredo. Literatura e resistência (Companhia das Letras, 2005)

BOSI, Alfredo. O enigma do olhar (Companhia das Letras, 2009)

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira (Ouro sobre Azul, 2005)

CANDIDO, Antonio. Na sala de aula (Ática, 1996)

CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade (Ouro sobre Azul, 2015)

CANDIDO, Antonio. Vários escritos (Ouro sobre Azul, 2006)

CAMPOS, Augusto. Re-visão de Kilkerry (Brasiliense, 1985)

CAMPOS, Haroldo. O sequestro do barroco (Iluminuras, 2011)

CAMPOS, Haroldo. Metalinguagem e outras metas (Perspectiva, 2000)

CAMPOS, Haroldo. Uma poética da radicalidade (Globo, 1999)

COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil (José Olympio, 1986)

CRUZ E SOUZA, João. Missal & Bróqueis (Martins Fontes, 2001)

CUNHA, Euclides. Os sertões (Ateliê, 2003)

DIAS, Gonçalves. Obra completa (Nova Aguilar, 1988)

DIAS, Gonçalves. Poesia indianista (Martins Fontes, 2001)

FILHO, Domício Proença (org.) Poesia dos Inconfidentes (Nova Aguilar, 2005)

FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Entretempos (Edusp, 2013)

FOOT HARDMAN, Francisco. A vingança da Hileia (Ed. UNESP, 2009)

GINZBURG, Jaime. Crítica em tempos de violência (Edusp, 2012)

GONZAGA, Tomás Antônio. Marília de Dirceu (Nova Aguilar, 2005)

HANSEN, João Adolfo. A sátira e o engenho (Ateliê, 2004)

HANSEN, João Adolfo (org.) Estudos sobre Vieira (Ateliê, 2011)

HOLLANDA, Sérgio Buarque. Capítulos de literatura colonial (Brasiliense, 1991)

HOLLANDA, Sérgio Buarque. O espírito e a letra [2 v.] (Companhia das Letras, 2002)

NODARI, Alexandre. A posse contra a propriedade: pedra de toque do Direito Antropofágico (UFSC, 2007)

NODARI, Alexandre. A única lei do mundo (É realizações, 2011)

NUNES, Benedito. Oswald canibal (Perspectiva, 1987)

PÉCORA, Alcir. Máquina de gêneros (Edusp, 2001)

PÉCORA, Alcir. Teatro do sacramento (Edusp, 1994)

PERRONE-MOISÉS, Leyla. O Ateneu: retórica e paixão (Brasiliense, 1988)

POMPÉIA, Raul. O Ateneu (Cia. das Letras, 2013)

ROCHA, João Cezar Castro (org.) Antropofagia hoje? (É Realizações, 2011)

ROCHA, João Cezar Castro (org.) Nenhum Brasil existe (Topbooks, 2003)

SANTIAGO, Silviano. Vale quanto pesa (Paz e Terra, 1982)

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos (Rocco, 2000)

SCHWARZ, Roberto. Duas meninas (Companhia das Letras, 1997)

SCHWARZ, Roberto. Que horas são? (Companhia das Letras, 1999)

SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo (34, 2003)

VIEIRA, Antônio. Sermões (Companhias das Letras, 2011)

 

do que se esconde no futuro (IV) — 17/05/2016

do que se esconde no futuro (IV)

Saem agora, um tanto atrasados talvez, mas com a casa arrumada e as melhores perspectivas, mais dois números dos Cadernos Benjaminianos, periódico que edito em nome do Núcleo Walter Benjamin – NWB, Grupo de Pesquisa/CNPq que reúne, a partir da Faculdade de Letras da UFMG, leitores de Benjamin e da filosofia alemã de várias latitudes, áreas de atuação e pontos de vista críticos. E é nessa dimensão de encontro e diferença que as novas edições vem a público (nos próximos dias), prometendo já uma outra edição (n. 11) para o mês de Agosto.

 

WB

Aos que têm ensaios de matéria benjaminiana, ou que tenham no autor de Charles Baudelaire – um lírico no auge do capitalismo um interlocutor seguro e irrequieto, deixo a sugestão e o convite: publiquem conosco, submetam os seus escritos, elaborem conosco a trama tênue e segura de vozes que falam para Walter Benjamin, a partir dele e em torno ao seu vasto e ingovernável legado:

http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/cadernosbenjaminianos/about/submissions#authorGuidelines

 

Fica aqui, a modo de provocação e promessa, o Sumário provisório dos números por vir: isso é o que espero (esperamos) entregar rapidamente, e continuar entregando indefinidamente. Para lembrar o próprio Benjamin (via Haroldo de Campos): “a esperança existe por causa dos desesperados”.

 

WBII

 

BENJAMIN NO BRASIL – vol. 10 (2015/2)

Carpeaux e Benjamin: uma recepção contrafeita – Bruno Gomide (USP)

Urbanismo e guerra: silêncios – Frederico Canuto (UFMG)

O entorno vário e fragmentado em K. – relato de uma busca, de Bernardo Kucinski – Paulo Roberto Barreto Caetano (CEFET-Minas)

O que pode um autor ensinar aos escritores? uma reflexão sobre corpo e mediação nas oficinas de escrita criativa – Geruza Zelnys (USP)

O narrador chiffonnier no romance de Caio Fernando Abreu – Milena Mulatti Magri (USP)

O ‘anjo da História do Brasil’: uma alegoria em abismo em Píer, de Sérgio Alcides – Eduardo Horta Nassif Veras (UNICAMP)

Comunicação sobre as tribos vencidas – Cristiano Batista Rodrigues (UNICAMP)

Walter Benjamin relampeja em Guimarães Rosa – Lívia de Sá Baião (PUC-Rio)

 

WBIII

 

CADERNOS BENJAMINIANOS – vol. 08 (2014)

New forms for our new sensations: a convergência de novos sons e imagens na modernidade – Isadora Meneses Rodrigues (UFC)

A coleção – um gesto poético: uma leitura benjaminiana do colecionismo – Constance von Kruger (UFMG)

A estesia às avessas na era da reprodutibilidade técnica: uma leitura benjaminiana de Salò ou Os 120 dias de Sodoma – Alice Vieira Barros (UFMG)

Mimetização e linguagem em Vidas secas: uma abordagem benjaminiana – Davi Alexandre Tomm (UFRGS)

Narração e resistência em Dois irmãos: os desvãos da História – Amanda Carvalho Azevedo (UFMG)

Resistência e história na imagem do flanêur – Jorge de Freitas (UFMG)

Um deserto de palavras, uma biblioteca de areia: a coleção em Benjamin e Calvino – Bruna Ferraz (UFMG)

do que se esconde no futuro (III) — 13/05/2016

do que se esconde no futuro (III)

A partir de agosto próximo, às 07:30 das segundas e quartas-feiras, ofereço aos interessados (e aos insones) a disciplina que segue.

Coragem:

 

Título

Estudos Temáticos:

O MAPA E O TERRITÓRIO: CAMINHOS DA CRÍTICA NO PRESENTE

 

Ementa

O curso propõe investigar algumas das tendências fundamentais da crítica literária e cultural brasileira dos últimos anos, procurando compreender, ao mesmo tempo, a sua poética particular e os pressupostos teóricos que servem de base para o gesto de apropriação, para o salto no escuro que pretendem executar. A partir da leitura de autores, ensaios e trechos selecionados, o traçado de algumas linhas de força irá se esboçar: a) a crítica biográfica; b) a leitura filosoficamente informada da literatura brasileira; c) a proposição de novas temporalidades e eixos historiográficos; d) os percursos crítico-criativos; e) a irrupção da biopolítica e da subalternidade; f) as articulações entre cultura e barbárie no Brasil.

MS

Programa

 

  1. Repropor o tempo

 

  • “O tempo preocupado: para uma leitura genealógica das figuras literárias” – Ettore Finazzi-Agrò (Entretempos)
  • “Maranhão-Manhattan: uma ponte entre nós” – Marília Librandi Rocha (Maranhão-Manhattan)
  • “A origem em ausência: a figuração do índio na cultura brasileira” – Ettore Finazzi-Agrò (Entretempos)

 

2. Escrever a violência

  • “Tróia de Taipa: Canudos e os irracionais” – Francisco Foot Hardman (Morte e progresso)
  • “Literatura e cegueira” – Jaime Ginzburg (Crítica em tempos de violência)
  • “Limitar o limite: modos de subsistência” – Alexandre Nodari (Os mil nomes de Gaia)

 

3. Pensar a poesia

  • “A cisma da poesia brasileira” – Marcos Siscar (Poesia e crise)
  • “Apoesia contemporânea” – Alberto Pucheu (Apoesia contemporânea)
  • “Terra devastada: persistências de uma imagem” – Eduardo Sterzi (Remate de Males)

 

       4. O jogo da diferença

  • “Além da literatura” – Marcos Natali (Literatura e sociedade)
  • “Questões de herança: Do amor à literatura (e ao escravo)” – Marcos Natali (Literafro)
  • “O sujeito carcerário” – João Camillo Penna (Escritos da sobrevivência)
  • “O espelho da dependência” – João Camillo Penna (Comunidades sem fim)

EVC

5.Campo dos possíveis

  • Pedro Nava, o risco da memória – Eneida Maria de Souza
  • “Pelo colorido, para além do cinzento” – Alberto Pucheu (Pelo colorido, para além do cinzento)
  • “Poéticas do animal” – Maria Esther Maciel (Pensar/escrever: o animal)
  • “A Gaia ciência” – José Miguel Wisnik (Sem receita: ensaios e canções)
  • “Um mundo de gente” – Eduardo Viveiros de Castro & Débora Danowski (Há mundos por vir?)

 

Bibliografia 

ADORNO, Theodor W. Ensaio como forma. In: Notas sobre literatura I (34, 2003)

BAPTISTA, Abel Barros. O livro agreste (Ed. UNICAMP, 2005)

BENJAMIN, Walter. Passagens (Imprensa Oficial/UFMG, 2006)

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização (Companhia das Letras, 1992)

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira (Ouro sobre Azul, 2005)

CANDIDO, Antonio. Vários escritos (Ouro sobre Azul, 2006)

DERRIDA, Jacques. De que amanhã… (Jorge Zahar, 2004)

DERRIDA, Jacques. Essa estranha instituição chamada literatura (Ed. UFMG, 2014)

DERRIDA, Jacques. La loi du genre. In: Parages (Galilée, 1986)

DIDI-HUBERMANN, Georges. A imagem sobrevivente (Contraponto, 2012)

DIDI-HUBERMANN, Georges. A sobrevivência dos vaga-lumes (Ed. UFMG, 2010)

FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Entretempos (UNESP, 2013)

FOOT HARDMAN, Francisco. A vingança da Hileia (UNESP, 2009)

FOOT HARDMAN, Francisco & GINZBURG, J. & SELIGMANN-SILVA, M. (org.) Escritas da violência [2 vol.] (7Letras, 2012)

FOOT HARDMAN, Francisco. Morte e progresso (UNESP, 2001)

GARRAMUNO, Florencia. Frutos estranhos (Rocco, 2014)

GINZBURG, Jaime. Crítica em tempos de violência (Edusp, 2012)

LIMA, Luiz Costa. Sebastião Uchoa Leite: resposta ao agora (Dobra, 2012)

MACIEL, Emílio. Fundamento-abismo: Machado de Assis na Formação da literatura brasileira (O Eixo e a Roda, 2011)

MACIEL, Maria Esther. Pensar/escrever: o animal – ensaios de zoopoética e biopolítica (Ed. UFSC, 2011)

MIRANDA, Wander Melo. Corpos escritos (Edusp/UFMG, 1992)

MIRANDA, Wander Melo. Nações literárias (Ateliê, 2010)

NATALI, Marcos. Além da literatura (Literatura e Sociedade, 2006)

NATALI, Marcos. Questões de herança: Do amor à literatura (e ao escravo) (Literafro, 2013)

NODARI, Alexandre. Limitar o limite: modos de subsistência (2015)

PEDROSA, Celia. Subjetividades em devir (7Letras, 2009)

PENNA, João Camillo. Comunidades sem fim (Circuito, 2015)

PENNA, João Camillo. Escritos da sobrevivência (7Letras, 2013)

PEREIRA, Antonio Marcos. Biografia literária: duas tradições. In: Outra Travessia (2013)

PUCHEU, Alberto. Apoesia contemporânea (Azougue, 2014)

PUCHEU, Alberto. Pelo colorido, para além do cinzento (Azougue, 2007)

ROCHA, Marília Librandi. Maranhão-Manhattan (7Letras, 2009)

SANTIAGO, Silviano. Uma literatura nos trópicos (Rocco, 2000)

SANTIAGO, Silviano. Nas malhas da letra (Rocco, 2002)

SANTIAGO, Silviano. Ora direis, puxar conversa! (Ed. UFMG, 2005)

SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Cena do crime (José Olympio, 2013)

SCHWARZ, Roberto. Martinha versus Lucrécia (Companhia das Letras, 2012)

SCHWARZ, Roberto. O pai de família e outros ensaios (Paz e Terra, 1992)

SELIGMANN-SILVA, Márcio (org.) Catástrofe e representação (Escuta, 2003)

SELIGMANN-SILVA, Márcio. História Memória Literatura (Ed. UNICAMP, 2003)

SISCAR, Marcos. Poesia e crise (Ed. UNICAMP, 2010)

SOUZA, Eneida Maria. Janelas indiscretas (Ed. UFMG, 2011)

SOUZA, Eneida Maria. Pedro Nava, o risco da memória (Funalfa, 2004)

STERZI, Eduardo. A prova dos nove: alguma poesia moderna e a tarefa da alegria (Lumme, 2008)

STERZI, Eduardo. Cadáveres, vaga-lumes, fogos-fátuos (Celeuma, 2013)

STERZI, Eduardo. O reino e o deserto: a inquietante medievalidade do moderno (Boletim de Pesquisa NELIC, 2012)

STERZI, Eduardo. Terra devasta: persistências de uma imagem (Remate de Males, 2014)

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo & DANOWSKI, Débora. Há mundos por vir? (Cultura e Barbárie, 2014)

WISNIK, José Miguel. Sem receita: ensaios e canções (PubliFolha, 2004)

 

 

 

 

 

 

 

do que se esconde no futuro (II) — 11/05/2016

do que se esconde no futuro (II)

Convidado (generosamente) por Maria João Cantinho e João Oliveira Duarte – duas dentre as muitas coisas boas que Lisboa deu a mim – passei a organizar, a coisa de uns meses atrás, um Dossiê sobre Poesia Brasileira Contemporânea, a sair num dos próximos números da revista Café com Letras, esse pequeno milagre surgido além-mar (https://revistacafecomletras.com)

MJC

O trabalho ainda não terminou, mas já se anuncia, quase pronto. Em breve veremos os textos dos colegas que, como eu mesmo, acolheram o chamado e se puseram a escrever, abordando a poesia do presente sob diferentes perspectivas:

  • Pádua Fernandes sobre a questão e a imagem da terra em poetas e críticos como Leonardo Gandolfi, Eduardo Sterzi e Fábio Weintraub;

Escala

  • Sabrina Sedlmayer sobre as pequenas editoras de poesia no Brasil e em Portugal, tendo como alvo o recente duas janelas, de Ana Martins Marques e Marcos Siscar;

 

  • Eduardo Veras sobre a lírica mínima e pensante de Paulo Henriques Britto;

 

  • Eduardo Jorge sobre o mais novo livro do multiartista Nuno Ramos, Sermões, sua relação com Drummond, Vieira e outras vozes-chave da língua;

 

  • Tiago Guilherme Pinheiro sobre a poesia de Ricardo Domeneck e Walter Gam;

 

  • Mariana Ianelli sobre a pouco conhecida poeta Marize Castro, cuja produção esmiúça e apresenta;

 

  • Sérgio Alcides sobre o imenso Armando Freitas Filho;

Sérgio Alcides

  • Marcos Siscar, que concede entrevista (sobre crítica, tradução e criação) a mim, a Eduardo Veras e Tiago Guilherme Pinheiro;

 

  • E eu mesmo, por fim, sobre a reivindicação (e a presença) de Pasolini na poesia brasileira contemporânea.

 

Como se vê (eu espero) a expectativa não poderia ser melhor. A lamentar apenas a ausência de duas queridas colegas que, na última hora, tiveram de declinar do convite. Oportunidades, no entanto, não faltarão para que possamos, em breve, pensar a poesia que se faz no país enquanto comemos, enquanto amamos, enquanto dormimos ou escrevemos os nossos ensaios.

 

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